território livre  |  2021

UM EXÉRCITO QUE TEME A PRÓPRIA SOMBRA

SE TORNA CARRASCO DO SEU POVO

Fazem tudo errado, mas não suportam ser criticados.
 

Incultos e despreparados, confundem-se a si, indivíduos com as instituições que representam e não se abstêm de usar as mesmas instituições como escudo para o abuso de poder e agora vemos, alguns vários, o enriquecimento ilícito. Aderem acriticamente à doutrina mais generalizadora, que é o anticomunismo (em todas suas fases, do obscurantismo ao fascismo) mas não aguentam que se generalize os crimes que seus subordinados cometem, fardados e no exercício de suas missões. E as vezes, o próprio comando.

Não entenderam que honra não se afirma com ameaças, mas se conquista com a honradez dos atos e das atitudes. Não reconhecem os erros cometidos, ficam impunes por seus crimes, abusam de benefícios indevidos e não admitem que não gozam da credibilidade que alardeiam.

Sequer sabem a quem de fato servem. E de tanta impostura, vivem de disfarçar a vergonha e de odiar os que observam.

Eram originalmente forças coloniais. Na verdade, milícias de nacionais a serviço de Portugal. Tinham como missão defender os exploradores das riquezas da colônia e garantir sua expedição para as metrópoles.
 

Seu comando mudou de nacionalidade e numa pantomima de independência criaram símbolos e signos falsos de uma pátria à qual não defendiam. Gritaram para abafar o pensamento. Por isso odeiam tanto o bolivarianismo ou qualquer exército libertador, já que historicamente estão ligados a interesses forâneos, nunca à soberania. Se identificavam com corsários, piratas, filibusteiros. Seus ossos e caveiras. Talvez por isso admiraram os nazistas, os fascistas e por fim, os norte-americanos, contanto que vencedores. Não por se reconhecerem, mas por reconhecer neles uma superioridade que justificasse o incômodo permanente que sentiam.
 

São a essência de um Brasil dominado. A negação de toda vontade de autonomia e independência. Fazem de nosso país uma nave que arrasta a âncora por duzentos anos e pouco se distancia do porto de partida. Um país-nave à deriva ancorado aos seus piores defeitos.

Só a reflexão, o debate crítico franco, o enfrentamento aos seus crimes e erros passados, poderiam dar sentido e razão à nossas forças armadas. Elas têm como única saída, escutar e digerir as críticas feitas por historiadores, cientistas políticos, intelectuais e artistas. Sim, artistas também. Porque, com o constante exercício de sua liberdade, artistas são a vanguarda da sociedade. Uma expressão avançada, não só de seus anseios, mas também das possibilidades de sua formação plural.

Um exército que tem medo do pensamento, da criatividade e da liberdade, teme a própria sombra e se torna carrasco de seu povo.

Não basta um juramento à bandeira, se depois vem uma vida a serviço da iniquidade. A soberania é um valor que, no nosso caso, deve ser forjado pelo respeito aos povos originários, à terra virgem, em primeiro lugar. Mas também aos outros povos de nosso país, à diversidade de credo e costumes dos imigrantes que aqui aportaram, sejam invasores, escravizados ou refugiados. A complexidade que nos forma exige inteligência e sensibilidade. Força bruta e mão leve (como diz o meme da hora) devem ficar no passado. E a estupidez contumaz também.

Quito Pedrosa

Rio de Janeiro

 

arte

Anna Maria Maiolino

Masp

 

agosto 2021