Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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Máscara

 

 

 

 

Escaldei o pano de prato velho, outrora um presente sueco simpático da madrinha do meu filho, com vinagre, sabão e água fervente. Esse cheiro combinado me deu uma leve tontura. Mas quiçá eu já estivesse meio fora da casinha a partir do momento em que me peguei catando agulha, linha e panos. Ou, ao contrário, talvez eu nunca tenha tido de passar tanto tempo dentro da casinha. Tirei a máscara de snorkel do armário.

 

Fazia só duas semanas que vi fotos de um homem italiano fazendo compras assim e ri da criatividade dele.

Eu amo mergulhar de um jeito irracional, porque me traz uma realidade tão diferente da minha, sem gravidade, onde a refração da luz pelo meio líquido me encanta, então delego a esse objeto, essa máscara, um afeto por tabela. Lavei-a com detergente de lavanda e a deixo agora à mão.

 

Estava exagerando? Mas foi o CDC que recomendou o uso de máscara, e este molde eu peguei do New York Times. Nem para receita eu sigo a regra, mas essa máscara eu consultei de cabo a rabo. Como fazia sol, sentei na varanda pra pegar um ar e botei uma playlist amena pra costurar.

Normalmente, esses projetinhos me trazem o sentimento particular de competência ao dominar uma tarefa. Reconheci esse sentimento no brilhinho no olho do meu filho na semana anterior, quando o deixei fazer sozinho o arroz maluco. Maluco. Mal completos seus catorze anos, e ele estava sendo recrutado pra fazer sua parte nos afazeres de casa. Ensinei-o a usar a máquina de lavar, o aspirador de pó, como dobrar lençóis, como escovar a latrina. Mandei dinheiro pra faxineira ficar em casa e fiz um Excel do que vem sendo nossa rotina de limpeza e manutenção. Essa tem sido a parte fácil, os trabalhos manuais.

 

Parar e ler uma Lauren Berlant, isso sim é labuta, e embora eu não dê falta desses mergulhos internos, profundos, quando consigo é um grande alívio, é como recuperar uma coreografia depois de esquecida. Escolhi uma linha cinza-clara que pudesse ficar discreta contra o pano azul listrado e comecei. Cortei o pano conformes medidas em polegadas usando a régua escolar dele e fixando as tiras nos cantos.

 

Me distraí pensando na ironia paradoxal do momento, todo mundo se cobrindo de máscaras a medida em que o mais cru, o mais explícito de nós ficou tão visível: o medo. Uma ou duas incertezas, ou mistérios, dão charme à vida e mobilizam nossa sensibilidade poética, mas o que me parece é que uma bola de neve das mesmas, tacada de supetão, nos deixa atônitos e faz cair todas as fachadas.

 

Minha vizinha irlandesa, que nunca liberou um bom-dia, fez perguntas incisivas sobre meu estoque para a crise quando passei na sua frente arrastando o carrinho de supermercado pesado. O fotógrafo francês com quem eu havia saído algumas vezes e que depois tomou Doril reapareceu no meu zap, mas, sem ver sentido em sua investida, apenas desejei sorte.

 

Quem sou eu para redimir alguém de alguma coisa neste momento? “Estou no teto do meu prédio, andando de um lado para o outro. Por que você também não faz isso no seu pátio? Assim podemos fingir que estamos saindo pra passear juntas”, disse minha amiga Natacha ao telefone. Eu ri, acordando minha musculatura facial para esse exercício mais raro há duas semanas, e obedeci. Ele é franco-congolês, eu carioca. Entre as muitas pautas da conversa, falamos sobre a impossibilidade de isolamento social em Kinshasa ou no Rio, em comunidades com densidade populacional de cinco mil por quilômetro quadrado. Na parte mais densa da Lombardia esse número não passa de quatrocentos.

 

Ao desligar o telefone fiquei pensando em como a mobilidade global vai se transformar depois disso, com companhias aéreas falindo, recessões, estranhamentos nacionais. Passei o último ano me candidatando ao doutorado em universidades longínquas, mas que permitem muita pesquisa a distância e poucos requerimentos presenciais. Já tinha até orçado e sonhado essa existência, pulando entre Europa, Nova York e Rio. E hoje me sinto sortuda de ter um pátio cujo perímetro é inferior a vinte metros, onde eu ando todo dia pra me exercitar.

 

Nos dias em que consigo me convencer de que é imperativo treinar a capacidade aeróbica, e manter os pulmões tinindo, boto logo um Claudinho e Buchecha e faço passadas laterais galopantes, nostálgicas, ao som de Tempos modernos. Nos dias de chuva, posso garantir que é possível dar as mãos ao Paulinho da Viola ouvindo a cadência de Roendo as unhas.

 

Hoje, por exemplo, marquei um Skype com minha amiga Ellen pra comemorar uma semana dela sem febre. Botei um vestido florido, o colar que meu pai me deu no mesmo tom de verde-água, e usei o delineador de olho conforme minha irmã havia me ensinado na última vez em que esteve aqui. Não quero esquecer como fazer essas coisas, e achei que a Ellen merecia ter alguém do outro lado da tela que se preparou para esse almoço a distância, a pompa pagando de substituto pobre para a sinergia.

 

Tem um passo na confecção da máscara que é virá-la pelo avesso, para revelar as cordinhas embutidas entre as duas camadas de pano que a compõem. Nesse momento ela poderia virar um boneco artesanal pra minha sobrinha, essa já em retiro em Mauá. Mas eu confirmo o destino dela de máscara mesmo, lembrando a fala da minha amiga Basia: “Todo mundo na Ásia usa, e lá eles conseguiram baixar a curva. Quando mais não seja, as pessoas se afastam de você na rua quando te veem de máscara. É útil abrir alas no supermercado.”

 

A Basia despachou o pai de volta pra Polônia semana passada via Berlim, deixou o marido no Queens e foi morar uns tempos no andar de baixo da casa da mãe dela, no campo, a uma hora e meia de Nova York. Juan, seu marido, vem do País Basco, Espanha. Ele é um cirurgião que foi retreinado para testar pacientes de coronavírus. Hoje ela postou que o marido já está usando a folha de plástico que a filha deles usou para capa de um trabalho escolar a fim de improvisar equipamento protetor.

 

O pico de demanda hospitalar só está previsto para fins de abril. Como vai se redefinir o primeiro-mundismo depois disso, ou quantas fachadas ainda vão ruir até que eu aposente a máscara que acabei de costurar, é uma contemplação sem fim, que vai borbulhar em cada mesa de jantar, cada banho prolongado. “Sim, filho, pode bicar meu vinho, mas só depois de duas garfadas de arroz.” Catorze anos, terceira semana em casa, liberei. Caiu minha máscara parental de modelo exemplar? Já era tempo.

 

Meu primeiro uso da máscara de pano foi ao ir ao banco tirar dinheiro em espécie. Preciso pagar ao bombeiro que veio aqui tratar de um pequeno vazamento, e ele não tem conta no banco nem Paypal. Uma vez usado o teclado do banco automático, tido como um antro viral, tratei minha mão como um objeto radioativo e a trouxe pra casa, direto pra pia sem poupar as mangas do casaco, me despi e botei tudo no cesto de roupa suja. Exceto a máscara, essa lavei na mão com água fervente para que estivesse utilizável no dia seguinte mesmo, ou até quando chegar as que encomendei online.

 

Entre o risco de o correio parar de vez, possivelmente em junho, e da greve da Amazon, me dou conta de que já vivo submersa numa realidade muito diferente da “minha”, com gravidade, onde a refração da luz me encanta, porque nem minha visão nem meu olfato ou palato sofreram perdas, então delego a esse objeto, essa máscara, um afeto por cautela.

 

 

 

 

 

 

 

Karen Sztajnberg

Cineasta e Doutoranda

Nova Iorque

 

Foto

Karen Sztajnberg

 

Abril 2020