território livre  |  2020

 

A VIDA É A ÚLTIMA QUE MORRE

 

 

 

 

Vida prevista. Sábado 23 de maio de 2020. Duas horas da tarde. Tenho que pensar em arrumar a mala. Daqui a uma semana vou viajar. Longe da França. Para dar a minha nona oficina de roteiros, no âmbito do Festival Varilux do cinema francês* . No Rio. Rio de Janeiro. Samba praia caipirinha favela mar Pão de açúcar pão de queijo limões feijões Ordem e progresso Corcovado panelaço quem mandou matar Marielle Franco?

 

Vida real. Sábado 23 de maio de 2020. Duas horas da tarde. Tenho que pensar em sair da cama. Daqui a pouco vou tomar um chuveiro. E depois? Dar uma caminhada. Em Paris. Torre Eiffel croissants café no balcão Notre Dame em chamas periferias elegância Flutua mas não se afunda** Arco de Triunfo vinhos tintos coletes amarelos. A cidade onde nasci. A cidade onde passei esses dois últimos meses. Sem deixar minha casa, ou quase. Por causa de um pangolim que está levando uma vida caótica na China. Pura loucura, primeira temporada.

 

Viagem no tempo. Dia 17 de março de 2020. Data inicial da infecção francesa pelo vírus interplanetário do lockdown. Todos os lugares que eu gosto estão fora do jogo. Livrarias cafés cinemas museus restaurantes teatros: fechados. Até quando? Ninguém sabe, nem mesmo o pangolim. Com a cumplicidade de um morcego desocupado ele criou essa bagunça geral mas falhou em resolvê-la. São dois amadores. Resultado: o fogo do medo, atiçado pelos governos, se espalhou no mundo.

 

Eu sonho. Vou aproveitar esse período para escrever ler pensar filosofar cozinhar malhar amar me reinventar.

 

Eu acordo. De ressaca mental. Não consigo ler, não consigo escrever. Pensar no quê? Grande cansaço. As minhas outras resoluções? Já me esqueci delas. Estou num estado de sideração persistente e de tensão crescente. Vazia de desejos, cheia de dúvidas. Eu me sinto culpada, portanto quero fazer esforços. Eu preciso da minha escrita, e vice versa. Ela precisa também, para existir e se desenvolver melhor, de leveza. Isso não tenho mais, infelizmente. Desde o início da epidemia na França, a leveza em mim logo se esgotou. Tanto faz. Eu ando insistindo. Procurando minha escrita preguiçosa no teclado do computador e minha criatividade nos rincões do meu cérebro desanimado. Em vão. Maior cansaço. Eu recomeço a ler. Não leio ficção não, só artigos sobre o coronavírus. Todos os artigos. Pouco a pouco estou me tornando, como uma grande parte da população trancada e constrangida do planeta, uma especialista em epidemiologia. Uma viróloga deslumbrante, desprezada pelos ignorantes, respeitada pelos vizinhos. Uma enciclopédia viva, capaz de responder às perguntas que ela nem entende. Aqui me vem rápido uma revelação. Agradeço à minha mente pela camada de bom senso que lhe sobra. A minha ciência de pacotilha nunca vai sarar ninguém, ponto. Já existem pessoas talentosas e competentes que cuidam disso. Chega de artigos científicos. Extremo limite do cansaço.

 

Mais amor por favor. Os dias passam. Todos iguais, mais ou menos. O presidente francês fala que estamos em guerra, mais não quero combater ninguém, exceto meu lado escuro. O presidente brasileiro afirma que o coronavírus está uma gripezinha. Sinto muito pelo povo brasileiro. Além da epidemia, ele não merece um palhaço que não tem graça.

 

Receita infalível contra a depressão. Na verdade a única coisa pela qual consigo me interessar, nessa época turva, é a lingua portuguesa. Comecei a aprendê-la ao fim de 2014, depois da minha segunda estadia no Rio. Desde então estou praticando. Nos vários sites ou podcasts na internet, tipo a revista piauí, a São Paulo Review, o Nexo Jornal, Porta dos Fundos, Foro de Teresina, etc. O que mais gosto são as diferenças entre as expressões idiomáticas francesas e portuguesas. Os franceses engolem cobras - e são bem expertos para fazer isso - enquanto os brasileiros engolem sapos. Será que eles esperam que o sapo se torne, depois do trabalho da digestão, um príncipe encantado ou uma princesa desencantada? Vou torcer por isso mas fico com dúvidas. Outra diferença que notei recentemente: o lockdown se chama confinamento na França, isolamento social no Brasil. Eu prefiro a palavra brasileira. Acho mais adequada à realidade surreal na qual vivemos. Mesmo que você esteja em casa com a família, você fica isolado com seus pensamentos e sentimentos. Isolado dos outros seres humanos, da natureza, da cultura. Ah, a cultura. A cultura viva. É isso que me falta mais, eu acho. Além de tudo.

 

Mais cultura por favor. No dia 11 de maio a França saiu do isolamento social. Em teoria. Na prática, o país entrou numa fase chamada « desconfinamento » que tem mais a ver com o confinamento inicial do que com a liberdade anterior. É uma fase de isolamento 3 intermediário enquadrado por restrições arbitrárias. Em Paris por exemplo podemos voltar para o cabelereiro (já era tempo!), para várias loujas, incluindo livrarias (beleza!), podemos tomar o metrô o ônibus o trem (usando máscaras) para irmos ao escritório e ressuscitarmos a economia francesa. Mas ainda não é possível comer no restaurante. Nossa reputada cozinha tem que esperar um pouquinho antes de renascer. Além disso, não temos a autorização de caminhar nos parques ou jardins, nem de tomar um drinque ao ar livre nos terraços dos cafés. As salas de teatro e de cinema, os museus ainda estão fechados. Mas as igrejas, sinagogas e mesquitas já acolheram de novo os crentes. Pura loucura, segunda temporada.

Eu penso no provérbio: a esperança é a última que morre. Na França a cultura é a última que reabre, junta com a comida e a bebida. Parece que o Iluminismo e o bom gosto francês acabaram para sempre. Sobram a escuridão, o medo e o distanciamento físico. Não tocar não beijar não lamber… não transar? O governo ainda não publicou um decreto sobre o assunto. Se ocorrer uma segunda onda da Covid-19, acho provável que ele faça.

 

Questão de jeito. Na primeira vez que fui no Brasil ouvi falar do jeitinho brasileiro. Uma maneira improvisada, discreta e informal de resolver problemas, sérios ou não. Eu adoro essa exceção cultural brasileira. Ela me toca muito, pois traz uma forma de leveza, uma visão distanciada e otimista da vida. Na França nossa fama é baseada numa outra caraterística específica: a nossa aptidão para nos rebelarmos. Um jeitão que se vê de longe. Não é nem discreto nem leve, de jeito nenhum. Nós utilizamos nas situações inextricáveis, quando percebemos que temos que agir em vez de reclamar. Agora está anestesiado. Pode mudar.

 

No qual mundo não viveremos? Bem antes da pandemia do coronavírus, já flutuava no ar planetário um cheiro de rebeldia, senão de revolução. E com ele muitas perguntas en forma de núvens sobre: natureza capitalismo pobreza desigualdades ditadura desmatamento aquecimento global ecologia superpopulação terrorismo tratamento de dados pessoais... Será que os moradores da Terra encontraram finalmente um jeito comum para criar o mundo de amanhã ou, melhor, o mundo de depois de amanhã, a partir das ruinas dos mundos de ontem e de hoje? Vamos recomeçar do zero? Ou mergulhar de novo com alegria no oceano dos nossos erros passados? O pangolim também está aguardando com ansiedade o fim do caos. Será que os caçadores vão caçá-lo de novo? Comer a carne dele, vender as escamas dele. Quem será a primeira que morre? A liberdade, a solidariedade, a dignidade, a inteligência? O suspense fica inteiro.***

 

 

 

 

* Festival Varilux em Casa

**« Fluctuat nec mergitur » é o lema da cidade de Paris

***O texto foi originalmente escrito em português

 

 

 

Corinne Klomp

Autora e roteirista francesa

Paris

 

maio 2020

 

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