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ERA UMA VEZ BRASÍLIA

ERA UMA VEZ BRASIL

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O filme "Branco Sai, Preto Fica", de Adirley Queirós, narra um episódio acontecido em 1986 na Ceilândia (DF), durante a realização de um Baile Black, no Clube Quarentão. No auge da diversão da molecada, a polícia entrou no salão, mandou parar a música e gritou para a multidão que delirava com as coreografia dos grupos blacks: branco sai, preto fica! Paralelo a história no baile,  um viajante do espaço, o inesquecível Cravalanças, chega a Brasília com a missão de denunciar o Estado brasileiro por crimes praticados contra a população periférica.

 

O filme seguinte de Adirley “Era Uma Vez Brasília” se encadeia no anterior “Branco Sai...” que por sua vez liga-se com a primeira produção em longa-metragem “A Cidade É Uma Só”, como uma série temática sobre a exclusão levada a cabo pelo Estado brasileiro nas periferias. Ceilândia, evidentemente também é Jacarezinho, Gaza e o território Guarani Kaiowá ou Ianomami. Como uma ópera punk martelando, destroçando, disparando, cuspindo o tema, na ficção e na realidade, no documental e no delírio, assim são os seus filmes.

 

“Era Uma Vez Brasília” também mostra um viajante do espaço, dessa vez com uma missão pra mudar o futuro do Brasil: assassinar Jucelino Kubitschek antes dele criar Brasília e cortar o mal pela raiz. Mas a missão fracassa, o ser intergalático chega atrasado e aporta no Distrito Federal em 2016, ano do golpe parlamentar contra a presidente Dilma Roussef, tudo fica em suspenso, paralisado, o próprio país estagna naquele momento. Como em outras de sua realizações, os personagens não conseguem se aproximar da Brasília do poder, nem sequer chegam perto do Plano Piloto: o veem ao longe, a exclusão os acompanha. O Estado não dá trégua. Há uma cena do filme onde um personagem sentando num cadeira de rodas com o Congresso ao fundo, ouve sem reagir as vozes dos discursos hipócritas do tenebroso dia do impeachment, se aquele momento era de estagnação, o som das vozes da farsa parlamentar parece derrubar as últimas muralhas civilizatórias contra a barbárie que viria.

 

Começamos com “Era Uma Vez Brasília” em 2015, filmando todo o movimento do golpe, as velhas falando doideira... dizendo que o mundo ia acabar, que o PT era coisa do diabo, o Congresso coberto de bandeiras verde-amarelas, aquela demência toda. Nós conseguimos colocar nossos personagens dentro do Congresso, isso acabou não entrando na montagem final, mas fez parte do processo de criação. O filme estreou em 2017 no Festival de Brasília. Como “Branco Sai Preto Fica” ganhou o Festival em 2014, a expectativa era grande, mais de 900 pessoas ficaram de fora da sessão. No final da projeção ouve um silêncio absoluto. Foi a sensação mais estranha que eu já tive na vida. As pessoas esperavam um filme redentor, estilo “fora Temer”, e ele é um ataque frontal ao golpe, só que não tinha tanta obviedade.


 

Depois do golpe que provocou a estagnação, deixou o Brasil em suspenso e cancelou a esperança, o próximo filme de Adirley, o já montado, “Mato Seco Em Chamas”, codirigido por Joana Pimenta; entra com tudo no caos, no desespero e na violência trágica, como se antecipando em 3 anos o que aconteceria na pandemia. Se o pessoal ver esse filme hoje, vai dizer que a gente colou a realidade de 2020, porque ali tem vacinação, toque de recolher, exército na rua, um hospital da Ceilândia que está em calamidade porque não tem UTI pra todos, e o Estado brasileiro matando geral.

 

"Mato Seco Em Chamas" a princípio, no mesmo estilo indistinto entre ficcional e documental, conta a história de cinco mulheres que acham petróleo na comunidade de Sol Nascente, localidade periférica colada à cidade de Ceilândia. Quando o Estado brasileiro (sempre ele) descobre as riquezas desse subsolo, para tomar o petróleo inventam que há um vírus no local e a população tem que ser evacuada. As protoganistas resistem a ação estatal e pegam em armas, o filme vira uma epopéia de gangsterismo, com muito sexo e “maloqueragem”. Mas essa história como já dissemos, foi o princípio. No meio das filmagem Léa, irmã da atriz que interpretava a personagem Shitara, sai da cadeia depois de oito anos e passa a morar com ela. Aí a gente descobre, e não sabíamos disso, que a Léa é a maior maloquera de Sol Nascente, e ela pirou com o filme. Ela entrou na parada e o filme mudou, virou algo que ainda não sabemos o que é, talvez uma história de exploração, de repressão, com uma grande discussão sobre o sistema penitenciário. No meio do filme nós fundamos o Partido do Povo Preso (PPP) com uma campanha aberta pra eleger um deputado ou deputada distrital vinda da prisão.

 

Sobre o futuro do filme, que ainda não se sabe quando será exibido, Adirley conta que não há futuro. No primeiro corte a produção ficou com quatro horas de duração e os diretores não tem a menor intenção de deixá-lo menor que isso. Esquece, ninguém vai ver um filme brasileiro de quatro horas. Mas quem quiser ver, foda-se, não estou nem aí.

 

Mesmo que nunca seja mostrado ao público (o que não é provável), o filme já foi visto e vivenciado pela comunidade de Sol Nascente, quando por exemplo, um grupo de 100 motoboys participou do filme em cenas de correria adoidada, farra, cavalo de pau, uma diversão para eles e ainda recebendo um cachê cinco vezes maior que uma diária de delivery. Dessa participação surgiu o sindicato dos motoboys de Sol Nascente. O cinema de Adirley encadeado numa série de temática da exclusão, da possibilidade na impossibilidade, da mobilidade na imobilidade, nas contradições expostas de forma sempre desafiadora, inquieta e provocativa de quem gosta de andar na contramão da contramão, está presente na realidade e na ficção da periferia.

 

 

 

 

Entrevista por

Gil Rodrigues

Roteirista, jornalista e editor da revista Ignorância times

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maio 2021