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O CARNAVAL DE MADUREIRA

 

 

 

Na década de 1920 as regiões dos subúrbios do Rio de Janeiro chamavam a atenção não somente por seu aspecto de insalubridade, propalados pelos jornais, mas por suas festas. Um exemplo dessa atração exercida pela região e suas práticas foi a passagem do grupo de artistas modernistas que, em viagem de reconhecimento ao Brasil, chegou a Madureira. Tarsila do Amaral, após sua visita à capital carioca com o grupo de modernistas em busca de inspirações brasileiras para sua arte, pinta um quadro intitulado Carnaval de Madureira.

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A obra estava representando uma prática local de construção de coretos suntuosos para a comemoração do carnaval na localidade. Esse, possivelmente, teria sido um dos aspectos que chamaram a atenção de Tarsila para a região. No ano de 1924, foi publicada a foto da alegoria intitulada “A Torre Eiffel de Madureira”, no local onde seria o centro da festa da região. A alegoria foi construída em uma das principais vias de Madureira, a rua Carolina Machado, lugar do coreto anual do carnaval do bairro.

 

 

Nelson da Nóbrega Fernandes afirma que o carnaval de Madureira entrou na rota de “descoberta” do modelo de Brasil idealizado pelos modernistas. “O carnaval deste bairro já revelava um Brasil que os modernistas ansiavam por descobrir, razão pela qual Tarsila foi conduzida até aquele subúrbio no carnaval daquele ano.

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A Torre Eiffel de Madureira foi construída em homenagem a Santos Dumont, apresentando um dirigível no topo da alegoria, aludindo a seu famoso voo em torno da torre de Paris. Quando a obra de Tarsila foi divulgada, seus críticos associaram a Torre Eiffel ao estado de espírito da pintora, que acabara de chegar de uma temporada na França.

 

 

Segundo eles, a obra expressa a solidão vivenciada longe das terras brasileiras. Diante da foto do coreto a obra de Tarsila é o “retrato do carnaval de Madureira”, que diz muito mais sobre as práticas culturais do bairro, do que sobre as questões pessoais de Tarsila do Amaral.

 

 

O quadro da série Pau-Brasil, exposta em 1926, em Paris, retrata o carnaval na região de Madureira, assim como a população que o frequentava. Na obra de Tarsila, as pessoas que frequentavam o coreto eram negras e pareciam estar em uma cena cotidiana frequentada por crianças e mulheres. Note-se que a predominância de crianças no local, conforme registrado na fotografia, foi um dos destaques do quadro de Tarsila.

 

 

A promoção do carnaval centralizado em determinados espaços do bairro com a construção de coretos foi uma prática incentivada e divulgada por alguns periódicos interessados na divulgação das festas. Consistiu em uma ação dos comerciantes, artistas e moradores locais, provavelmente utilizada para incrementar o comércio, mas que, por conseguinte, também produzia para a festa e a região uma imagem positiva.

 

 

Havia o investimento por parte das associações dançantes, dos comerciantes e dos moradores no carnaval das ruas suburbanas. O que em si já compõe um quadro importante na geografia da cidade, que por sinal era divulgado nos periódicos. Sem querer comparar a proporção alcançada pelo carnaval da região central do Rio de Janeiro, chama a atenção que essa geografia suburbana pareça não fazer parte desse carnaval.

 

 

Os coretos eram obras artísticas arquitetônicas, cujos temas chamavam grande atenção, se não bastasse o seu tamanho. A Torre Eiffel de 1924 não foi o primeiro coreto de grandes proporções produzido pelos comerciantes de Madureira. Em 1922, outro coreto do bairro destacou-se pelo trabalho artístico e pela grandiosidade do projeto, indicando que esse era um investimento recorrente na localidade.

O Carnaval de Madureira 

1924

TARSILA COLORIDA.jpg

Fonte

Acervo Fundação José e Paulina Nemirovsky.

 

 

Coreto de Madureira

Ed 10 ALESSANDRA TAVARES O Carnaval de Madureira.jpg

Fonte

Careta, 1924

Ed 10 ALESSANDRA foto 3.jpg

Fonte

O Malho, 1922

 

Não se sabe ao certo se Tarsila do Amaral teria realmente visitado Madureira em sua passagem pelo Rio de Janeiro, em 1924. Como vimos pelas imagens do jornal seria perfeitamente possível que ela tenha pintado seu quadro a partir das imagens feitas pela cobertura do carnaval da região. No entanto, chama atenção que as composições rochosas presentes no quadro seja, muito semelhantes as pedras que ficam no topo do morro, em frente a Capela de São José da Pedra. Uma composição com duas pedras que ficaram conhecidas na Primeira República por se o ponto da celebração das festas do 13 de maio, nas comemorações à abolição do sistema escravista no Brasil.3 Uma importante referência a presença afrodescendente na região de Madureira. Consciente ou não sobre a importância da referência, ao escolher representar a composição rochosa de Madureira, Tarsila acabou por assinalar aspectos da geografia e da cultura local.

 

A arte suburbana representada pelos carnavais de Madureira foi secundarizada em detrimento ao que foi produzido pelo Movimento Modernista no Brasil. Embora o Movimento Modernista tenha um grande papel em repensar os rumos artísticos e tentar alcançar aspectos da nacionalidade brasileira, no caso do carnaval de Madureira o povo, os indivíduos são vistos de fora, como uma tela admirada a alguns passos de distância do local no qual é exposta. O olhar lançado ao carnaval do bairro, com seus suntuosos coretos e suas gentes suburbanas, desconsidera o papel dos populares como protagonistas da arte brasileira. O carnaval de Madureira, assim como o de vários cantos do Brasil são expressões de arte popular e, talvez por conta disso, são categoricamente excluídas como arte digna de dizer por si a que veio e estar no rol das maiores expressões de arte do Brasil - Quem sabe seja o movimento modernista brasileiro de fato.

 

1 AMARAL, Tarsila. Carnaval de Madureira. 1924. Acervo da Fundação José e Paulina Nemirovsky, São Paulo, Brasil.

2 FERNANDES, Nelson da Nóbrega Escolas de Samba: Sujeitos Celebrantes e Objetos Celebrados. Rio de Janeiro, 2001. p. 35.

3 MORAES, Renata Figueiredo. As Festas da Abolição: O 13 de Maio e seus significados no Rio de Janeiro (1888- 1908), Tese (doutorado). PUC – RJ. Rio de Janeiro, 2012.

 

 

Alessandra Tavares

Professora negra e doutora em história

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Rio de Janeiro

nov 2020