território livre  |  2020

 

O TEMPO NÃO TEM MAIS HORA MARCADA

 

Mais uma noite na merda.

O sono foge dos pesadelos,

E me acorda!

Saco, viu...

Não pega o celular!!!! Peguei....

A madrugada não passa!

Mas fazer o quê amanhã de manhã?

E à tarde?

E à noite?

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Trabalhar, brincar com filho, acompanha-lo nas lições, exercícios físicos, ouvir a NPR, lavar, passar, cozinhar, varrer a casa, receber entregador (vestir a máscara), higienizar tudo que chega a casa (lavar a máscara)... – ops!... lavar as mãos novamente.

  • Duas taças de vinho à partir das 20h00, foi esse o acordado entre mim e mim mesmo, entre eu e eu mesmo, entre mim e eu, entre eu e mim, entre eu e eu.

  • Cozinhar todo santo dia para me presentear próximo ao meio-dia.

  • Festa gastronômica todo domingo com pratos especiais.

Tenho visto muito mais dicas culinárias no Youtube e outros sites de receitas.

Estou sem reunir minha mãe, manos, manas, primos, primas e sobrinhos há 72 dias.

 

Calço as mesmas havaianas: as pretas rodam a casa, as azuis me aguardam de prontidão no tapete de boas vindas. Elas estão sempre lá quando saio para pegar ou levar o filho (amor da minha vida) na casa da mãe a cada dezena de dias.

Elas também são usadas na hora de pôr o lixo na lixeira ou pegar alguma encomenda recebida dos entregadores.

Por vezes, sinto-me mal com meus privilégios. Fico ainda pior quando me perdoo com as generosas gorjetas.

 

Me dei conta que estou vestindo 8 camisas e 8 cuecas mais confortáveis para usar em casa. No oitavo dia ponho tudo na máquina, estendo no varal, passo as 7 mudas da semana, e inicio um novo ciclo.

Preciso comprar 14 panos de prato.

 

Minhas sandálias maneiras, sapatos maneiros e tênis de corrida envelhecem por desuso. A sapateira me lembra quanto eu era vaidoso antes da pandemia.

Minhas camisas, calças e bermudas preenchem minhas gavetas e cabideiros. Elas também me lembram quanto eu era mais vaidoso antes da pandemia

De dez em dez dias uso camisa e bermuda destas maneiras para ir à rua pegar meu menino. Das últimas vezes fui mais largado, confesso.

Três shorts são suficientes para a semana.

 

A mesma calça é usada em reuniões de trabalho, palestras e bancas da pós graduação. São os dias de videoconferência em que visto camisa de botão. E também a calça (já soube de cuecas ou calcinhas de bolinhas entrando na casa dos participantes pelas telas de smartphones, tables e notebooks).

Comecei a usar mais um headphone maneiro que comprei, tem me sido bem útil.

Sinto muita falta das mesas do Vila Rica na calçada. Delas contemplava o Outeiro da Glória e outras belezas do meu bairro, logo após minha feira dominical.

Concentrei minhas doações em cestas básicas e alimentação das pessoas que moram nas ruas.

Amar... Eita, caralho.... Beijar tornou-se mais perigoso que trepar! A galera sobe pelas paredes.

 

Haja punheta, siririca, nudes, vibradores, bonecas, filmes pornô e o escambau.

O tesão pode ser aliviado enquanto o marido toma conta das crianças. Quando a esposa discute metas na reunião por videoconferência (porra, a bebê acordou, bem na hora!). E a galera solo masturba-se sem interrupções ou mentiras de que está cagando ou tomando banho.

Sexo virtual rola com a namorada que se cura da COVID-19, ou com o/a amante das saudosas e insuspestáveis tardes de segunda-feira.

Aquelas doze horas que afastavam os casais de segunda a sexta eram fundamentais para a harmonia do lar. Verem-se de verdade é o que de pior pode acontecer nessa quarentena.

 

Há muitas mulheres sofrendo ou morrendo nas mãos do covarde-mimado-príncipe-machão-de-merda. Este tipo de papai leva terror às crias...

Tem sido difícil me concentrar no trabalho depois do quinquagésimo quarto dia. Teimo, me forço e sai alguma coisa.

Diminuí meus posicionamentos nas redes sociais. Às vezes elevo...

Estou procurando outras páginas na internet que não os portais.

Tossi e espirrei outro dia, mas não perdi o olfato e o paladar. Seguimos.

 

Nas últimas setenta e duas noites, às 20h30, o bairro da Glória grita "Fora Bolsonaro", "miliciano", "fascista", "assassino", "racista", "genocida", "machista".

Senti falta de Leonel Brizola e Lula. Eram estadistas e democratas. Sempre votei à esquerda. Honro os ensinamentos do meu pai Severino e meu tio Pedro, dois pretos comunistas.

Me pego às vezes concordando com textos de comentaristas que contribuíram para o golpe da Dilma e para os quais sou pura oposição. Essa é a maior prova de que a coisa tá tão ruim, mas tão ruim, que opostos estão se ouvindo para frear a extrema direita.

 

Os apoiadores do capitão estão majoritariamente entre as madames e empresários emergentes verde e amarelo, oficiais do estado menor das Forças Armadas, valentões e covardes lutadores de artes marciais, policiais militares e civis, pobres da periferia e fiéis neopentecostais das igrejas dos bispos milionários.

 

Alquimistas, chegaram a uma fórmula revolucionária e ineficiente para ser ingerida através de porrada, tortura, extradição, estupro de feministas, assassinato de jovens negros e bomba nas favelas.

E, taxativos, condenam: "Que os infiéis sejam recebidos pelo diabo no inferno ou vão pra Cuba".

A unidade que os extremistas desejam une a idiotice à insanidade!

 

Aêêêêêê pessoal da "gente de bem", se liguem nessas: #somosplurais; #bucetaepaurecebemeentramemquemquiserem; #vcstbconsomemdrogas; #vivaentreobemeomal; #adordooutroimporta

 

Quando vão tirar do comando desta nave chamada Brasil, este homem branco de olhos azuis virulento, vil e violento?

 

Álvaro Pereira do Nascimento

preto, pai, pobre-pobre no passado e professor

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Arte Printerest

Julho 2020