território livre  |  2020

QUEM FOI TIA ZÉ?

 

Tia Zé é mais uma destas tias queridas coladas às nossas memórias. Nos apaixonamos por elas à primeira vista, quando ainda repousamos na incubadora da maternidade. Podem ser tias-avós, tias solteiras, tias casadas, tias emprestadas e as tias do coração.

Com o chamego viciante que nos nutre, cada uma delas carrega “tesouros” escondidos nas sacolas e os distribui para toda sobrinhada quando chega a nossa casa.

Num tempo mais distante elas traziam histórias e doces: pirulitos, balas, caramelos e o que mais pudesse conter o giratório baleiro de vidro, com tampa de metal.

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Em nossa fértil imaginação infantil, o baleiro mais parecia um tipo de cofre forte desejado por toda criançada, que ficava guarnecido por “seu Manoel", proprietário do armazém da esquina. Mas as tias, como as avós, irrigavam esta mesma imaginação e nos contavam histórias dos ancestrais, repletas de aventuras e legados para as gerações posteriores.

 

Emendavam suas lições de moral com orientações acerca dos “bons modos” e quão utilíssimos seriam eles para nos tornarmos “pessoas de bem”.

Mas elas traziam outras belíssimas surpresas: noss@s prim@s para brincar. Como amávamos estes momentos de brincadeiras, birras, beijos e abraços…

As tias ainda nos alimentavam com um quitute que somente elas sabiam fazer, e comíamos ao café da manhã, no almoço ou jantar. Como era boa aquela família ampliada por alguns dias (a visita era bem mais demorada, para nossa alegria).

 

Enquanto os mais velhos falavam do "mundo adulto", nós aprontávamos em nosso mundo (não poucas vezes tomávamos puxões de orelha por ouvir o que não devíamos). Então melhor brincar até a noite intensamente, suando, correndo, pulando em todas as brincadeiras da infância. A noite nos torturava com a doce ansiedade pelo raiar do dia seguinte, sentimento que teimava em não nos deixar dormir.

 

Num tempo mais atual, a relação das tias pode ser ainda mais aberto ao que nós realmente somos. Elas são mais ligadas à ciência do século XXI, e por isso aboliram os doces açucarados das suas bolsas. Após aquela aula de diabetes e obesidade infantil, nos presenteiam com maneiríssimas roupas miniaturas de adultos, o cartão para baixarmos o vídeo game que desejávamos, o biscoito de aipim comprado na feira orgânica dos sábados pela manhã. Suas histórias estão em livros infantis comprados em alguma Feira Literária. Leem sobre aventuras de meninas heroínas, crianças negras e indígenas protagonistas, o asfalto e a favela ocupados por gente real, e rechaçam a insana e redutora polaridade bem- mal. Ah, e ainda re-significam contos de fada: afinal, o Lobo é o lobo e não o "lobo mau”. Toda forma de vida é importante, principalmente as que estão em extinção como o próprio lobo, o urso e o tubarão. As guloseimas atuais, quando elas estão a fim de fazer, são cookies de aveia, sem açúcar e glúten, ou pizza de shitake no molho de tomate orgânico sobre massa de abobrinha, sem farinha de trigo.

 

Por fim, mostram as últimas tatuagens feitas em homenagem a filh@s, a mulheres revolucionárias, a luta contra o patriarcado, e a boca que morde a pimenta dedo-de-moça. Trazem seus companheiros ou suas companheiras e não são mais chamadas de tias solteironas. Trabalham, estudam e amam como bem entendem e ninguém tem nada a ver com isso. O corpo é delas e emitem um sonoro "foda-se" para quem pensa ao contrário.

 

Ôôôô… coisa boa… essas tias incríveis que tanto nos amam, né? Somos apaixonados por elas. Elas nos marcam com suas visitas e enriquecem nossas vidas com memórias vivas por todas as nossas vidas. Seus princípios nos vêm à memória inadvertidamente ante o perigo, a indecisão e o tormento. Lembramos, então, das tias Paty, Jô, Guida, Déia, Rosa, Kátia, Lê, Neyde, Kal, Maria, Leilusca, Michele, Marillene, Amir, Elvira, Ju, Duda, Reinalda.... Qual foi a sua, pessoa que me lê?

Bom, eu tinha a tia Zé.

 

Seu pastel era tudo. Ela mesma fazia a massa, e a abria com o rolo de madeira, cortando-a para nada desperdiçar. Uns pasteis eram grandões e outros pequenininhos. Ela os recheava com carne moída refogada num molho de tomate (não podia ter água) misturada a retalhos de ovos cozidos e azeitonas.

 

Após preenche-los com essa temperada iguaria, tia Zé os fechava com os dentes do garfo antes de enfiá-los no óleo quente da frigideira. E comíamos um a um com sucos ou guaraná.

Enquanto os fazia, Tia Zé fumava seu cigarro Minister sem filtro e bebericava sua cachaça Praianinha ou qualquer outra que meu pai tivesse em casa. A mãe de Tia Zé fumava cachimbo. São as modernidades que essa gente jovem quer provar. Por um menor estrago em sua saúde, melhor teria sido herdar o cachimbo da sua mãe.

 

Conheci Tia Zé já viúva, e trazia seus netos e netas lá para casa. São meus irmãos e irmãs para toda a vida.

Mas eu não sabia que Tia Zé era muito mais que isso. Mulher negra, nascida no início do século XX, período conturbadíssimo para descendentes de pessoas escravizadas. Tia Zé nascera menos de quatro décadas após a Lei Áurea. As pessoas associavam, ainda mais que hoje, pessoas negras à base da desumana pirâmide social, povoada de gente desrespeitada diariamente em hospitais, escolas, empregos, transportes públicos.

 

Gente a quem a polícia não pede licença para invadir a casa, que perfura com 80 tiros, ou mais, um carro de família com pessoas negras. Quando a polícia não mata, encarcera por suspeita, incrimina e põe à disposição da justiça. Quantos juiz@s branc@s nos condenam “em razão da [nossa] raça" como acontecido tão recentemente.

 

Na época de Tia Zé, poucos pretos e pretas entravam em cena no teatro ou no cinema. O dramaturgo De Chocolat e músicos como Pixinguinha venceram uma luta com brancos racistas que preferiam Grande Otelo enquanto escada de Oscarito. Quando cantadas, em verso e prosa, as mulheres negras tornavam-se pedaços de carne para o sexo, e seus cabelos tornavam-se peças ridicularizadas em músicas e textos. Quantas engenheiras, cientistas, médicas e advogadas negras perdemos para o serviço doméstico, pela imbecilidade e desumanidade do patriarcado e/ou do racismo?

 

Tia Zé foi uma tecelã da fábrica de tecidos como suas irmãs e mãe o foram. Minha Tia Zé e tantas outras mulheres negras figuraram pouco na historiografia que aborda a diversidade dos Mundos do Trabalho no século XX, um período pós abolição que se arrasta até os dias atuais.

 

Tia Zé foi uma mulher muito maior que eu imaginava. Ficaram os gostos dos seus pasteis em minha boca e os primos-manos e primas-manas no peito. Mas, hoje, tenho a certeza de todas as barras enfrentadas por ela num espaço-tempo em que a mulher negra foi tão guerreira como as mais velhas Dandaras.

 

Bença Tia Zé!”

 

 

 

Álvaro Pereira do Nascimento

Historiador e pesquisador 

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Rio de Janeiro

 

Foto Printerest

 

 

nov 2020