território livre  |  2020

 

MENINO 23

 

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A primeira vez que encontrei Seu Aluizio Silva para filmar foi em agosto de 2011.

Ele tinha então 89 anos de idade, 80 anos vividos na cidade de Capina de Monte Alegre no interior de São Paulo. Seu Aluizio foi um dos 50 meninos órfãos e negros que foram retirados em 1933, do Orfanato Romão Duarte no Rio de Janeiro, para a Fazenda Santa Albertina na região de Paranapanema. A fazenda pertencia a uma família que tinha membros na cúpula Integralista e simpatizantes ao nazismo que florescia no Brasil daquela época. Esse grupo de meninos trabalhou em regime análogo à escravidão – sem direito à educação nem salário , sujeitos á castigos físicos – até 1942, quando foram liberados e , na prática , expulsos da propriedade, sem dispor de recursos materiais e após anos de pouquíssima interação social com as pequenas cidades vizinhas.

 

Na fazenda cada um foi numerado e daí para frente chamado por seu número. Seu Aluizio era o 23, personagem principal do documentário Menino 23. Ele sobreviveu a duras penas sem nunca ter saído da região. Revoltado com seu destino desde sempre, teve força e coragem de ser o primeiro a revelar o que aconteceu com o grupo após saírem do orfanato.

 

Na segunda vez que o encontramos , convidei Seu Aluizio para voltar ao Rio de Janeiro e visitar o orfanato Romão Duarte. “Posso levar minha neta e meu neto?”. Claro que sim.

Ele pegou um avião pela primeira vez, viu do alto a cidade onde nasceu, sorriu quando passamos ao lado do Cristo Redentor e também reconheceu a praia do Flamengo que frequentou na infância.

No dia seguinte pela manhã, estava animado e elegante. Estreava roupas novas e sapatos para um encontro com suas memórias cariocas.

 

Enquanto subia as escadas imponentes de acesso ao orfanato, seu rosto foi assumindo uma expressão grave, concentrada. O olhar passeava pelos detalhes do prédio. Os passos eram lentos. Um silêncio se impôs à equipe. Podíamos quase tocar as lembranças enterradas há mais de 80 anos em cada cômodo e que agora vinham à tona, tomando, dominando, embargando Seu Aluizio.

Não eram memórias agradáveis. O grande quarto coletivo estava vazio naquele momento, fileiras de camas arrumadas, vozes de crianças ao fundo, em outro andar do prédio. O ar parou quando Seu Aluizio entrou.

Ele titubeava quanto a que direção seguir. Resolveu sair pelos fundos.

 

No pátio interno – o recreio para as crianças do orfanato – Seu Aluizio sorriu tristemente. “Nossa vida era brincar de bola de gude, patinete...” Quando ele reviu o passadiço que liga o prédio ao Morro Azul, ele começou a falar. Com dor e emoção. “Jogaram balas [dali] para os meninos pegar, e escolhiam os mais rápidos. Era o mesmo que um gado. Fomos separados dos outros meninos.” Andando em direção aos cantos, continuava: “Nós nem sabíamos onde era São Paulo.” E depois, “A gente só pensava em fugir. Fugir.”

 

E finalmente numa pausa , o desabafo duro, “Minha infância foi roubada.”

Naquele momento testemunhamos aquela história escandalosa de manipulação de uma infância desassistida e os maus tratos que viveram depois da saída do orfanato ganhar vida novamente na voz de

Seu Aluizio. A História com H maiúsculo muitas vezes distante –Vargas, o Integralismo, eugenia, elites racistas – virando carne ali de novo, registrada pelo seu impacto inexorável na vida de Seu Aluízio. E de quantos outros?

 

Ficamos ali atentos, a câmera reverente testemunhando a história ganhar matéria, a memória virar filme.

 


 

Em Menino 23 você pode saber mais sobre o filme e, em parceria com o Videocamp, a Giros Filmes faz parte da ação. 

Assista Agora onde quatro de seus filmes estão disponíveis gratuitamente:  Menino 23, Amazônia Eterna, Estrategia Xavante e Soldados do Araguaia.

 

 

Belisario Franca

Cineasta

 

Foto

Giros Filmes

 

Rio de Janeiro

Julho 2020