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ANCESTRALIDADE É PODER

As capulanas são tecidos, geralmente multicoloridos, utilizados como vestimenta pelas mulheres em vários países da África Subsaariana, como Moçambique, Tanzânia, Angola e Nigéria.

 

Esses panos, ao imprimir símbolos, signos, memórias e cores, nos contam a história tradicional e ancestral, e são parte da identidade estética, política e social desses povos. As capulanas também são utilizadas para diferentes práticas cotidianas e ritualísticas: mães carregam seus bebês enrolados as costas, são usadas em cerimônias de casamento, em velórios para cobrir seus mortos e passadas como herança de mãe para filha, de geração para geração, em um fluxo permanente de saber feminino, uma noção de ancestralidade que não finda. Essa tradição coloca a mulher em posição de centralidade, o que chamamos de matripotência; aquelas que são co-criadoras do universo.

Esse verdadeiro patrimônio feminino não é apenas estético e cultural, é parte de uma produção econômica descentralizada, levada adiante pelas mulheres do continente. Pensando nisso, propus para meu amigo Marcos Arzua, grande incentivador/investidor do livro “Capulanas Tecidos que Contam História”, que escrevi em 2018, compartilhar seu conhecimento e sensibilidade sobre economia, e ele nos trouxe um outro elemento, fundamental e urgente: a sustentabilidade.

 

É hora de dar ouvido a outras realidades, e talvez as capulanas sejam uma forma de propor e pensar em outros modelos, outras formas de vestir, de viver. E nesse mundo em colapso, urge olhar para frente, mas nos espelhando nas experiências da mãe-África. Com a palavra, Marcos:

 

Faz uns anos, eu caminhava por vias invernais bem no Centro Antigo de Roma quando me deparei com capulanas num varal improvisado entre blocos de pedra e ganchos de bronze. A tarde explodiu em cores e calor. Pequeno milagre feito de harmonia imprevista entre as linhas da arquitetura clássica e a bravura dos tons que compunham aquele painel de tecidos. 

Africanos não têm medo ao combinar livremente todas as cores e o cenário do lugar virou uma bandeira do universo.

 

Poucas vezes me senti tão acolhido na vida, até mais enlevado do que em minhas viagens ao continente africano, quando estive junto a artesãos e artistas. 

Não por acaso as capulanas, desde suas raízes hindus, falam para o povo de forma tão íntima, no interior das casas, na nossa pele, trazendo verdades ancestrais vindas de outros planos, num diálogo que veste o desejo dos vivos pelo manto celeste dos mortos.

Bom, mas preciso escrever com chapéu de técnico... 

 

Sugeri à minha amiga e parceira de texto, Bettine Silveira, comentar aqui a importância das identidades no desenvolvimento local. 

 

Importa abordar, mesmo de forma muito reduzida, os princípios da economia de base comunitária, o papel-chave dos mercados tradicionais, anteriores ao capitalismo. Mais de um milênio antes da expansão das navegações por iniciativa dos centros ocidentais europeus já se fazia ciência de base em África.

Criaram-se práticas de base monetária, como meios de pagamento e reserva estratégica, controlada por alguns reinos para sustentar trocas complexas, inovações tecnológicas (mineração, tecidos, cerâmica, madeira & tal) e formação de valor para produções manufaturadas e iniciativas de transformação - como na siderurgia e tecelagem, segundo padrões da época. 

 

Tudo isso era objeto de cálculo sofisticado e variado conforme o universo que se configurou. E apoiou um grande e duradouro fluxo de exportação para rumos do Ocidente e Oriente. 

A criação das capulanas e sua reprodução se deram por mecanismos de cooperação e vínculos de conhecimento fortalecendo arranjos produtivos e encadeamentos tradicionais existentes, uma vez que a circulação da informação gera técnicas similares e maior eficiência.

 

Nesses mercados atuam mestres e líderes com origem na comunidade. Exercem, portanto, a função de agentes mediadores de conflitos, considerando as dificuldades para se produzir e comercializar. Nessa linha, se produz valor ampliado, para além de objetos; multiplicam-se preciosos nexos sociais e conexões culturais.

 

A percepção que segue válida é a de que a regulação histórica dos mercados sempre se deu também por normas e costumes, as regras não escritas, que devem garantir de relações de confiança, até hoje mais presentes nas economias orientais.

Capulanas cumprem toda a simbologia de ser um produto de mercado que nos abriga e vitaliza como característica de uma manifestação cultural - e não um artigo de exibição voltado para o prazer imediato do consumo puro e simples, e expropriado de sua importância histórica.

 

Hoje em dia proliferam táticas de marketing corporativo que “lançaram” nas diversas mídias o conceito de ESG (traduzido do inglês como Equidade, Sustentabilidade e Governança). Trata-se de conglomerados que organizam atividades econômicas de forma vertical com baixa margem de negociação para os agentes posicionados na base da pirâmide.

 

No entanto, a filosofia da Sustentabilidade -  defendendo empreendimentos com práticas ecologicamente corretas, socialmente inclusivas e economicamente viáveis – dissemina, faz décadas, formas democráticas de coordenação (governança coletiva) das cadeias produtivas locais, frequentemente sob a forma de arranjos sócioculturais.

 

Em particular, as capulanas não são produtos com alto custo de insumos (como parte da agricultura orgânica) e preço final elevado; e jamais seguiram a lógica promocional de mercadorias supostamente alternativas; ou seja, bens vendidos como ecológicos, como alguns tecidos de fibras naturais, mas que utilizam o dobro da energia e (ou) de água para cada unidade elaborada.

 

Como tecidos poéticos e de resistência, capulanas envolvem meu texto com as mãos dadas das irmãs e irmãos que as engendram. As sagradas e laicas heranças trazidas de lá, e circulantes aqui no Brasil, nenhuma Nike poderá fabricar e menos uma Amazon saberá empacotar.

 

Marcos Arzua Barbosa

Economista, escritor e documentarista

 

 

Bettine Silveira

Editora da Revista Ignorância Times, figurinista e

autora do livro Capulanas Tecidos que Contam Histórias

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Rio de Janeiro

arte

Foto de Bettine Silveira  e Pintura de Zed Nesti

São Paulo

 

agosto 2021