território livre  |  2021

arte

PÚBLICO ALVO

Osvaldo Carvalho

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"AINDA SOMOS OBJETO, AINDA SOMOS RESTO"

No dia 6 de abril, a favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, foi palco de um massacre, de um espetáculo de horror: 29 jovens, na sua maioria negros e todos pobres, foram assassinados por uma ação da polícia. Em 2020, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), as intervenções policiais deixaram, na cidade do Rio, um total de 1245 vítimas. O número é absurdo, mas é menor que o total de vítimas fatais dos dois anos anteriores. Em 2019, foram 1.814, e, em 2018, 1.534.

 

A frase que deu título a esse texto: "ainda somos objeto, ainda somos resto", é de Gabriel Rumba 66 anos, líder comunitário desde os anos 80, na favela do Jacarezinho. Filho de pedreiro e ladrilheiro, profissão de grande parte dos trabalhadores na época, seu pai foi também um grande compositor, parceiro de Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e Zé Ketti. Rumba, nascido no meio de bambas do cancioneiro popular, sempre pensou em divulgar a cultura da favela, no que ela tem de melhor, de mais rica. "A cultura negra no Jacarezinho é muito forte. Chegamos a ter mais de 30 terreiros nesse território. Havia muitos compositores, tínhamos ladainha e gurufins, como eram chamados os velórios dos mortos nos barracos. As famílias reunidas cantavam samba e depois transportavam em cortejo os corpos para o cemitério", conta.

 

O escritor Luiz Antônio Simas fala que os corpos que terreirizam-se, driblam, gingam, comemoram gols, dançam, transitam, amam, requebram, passeiam, festejam, arvoram-se... são aqueles que ameaçam, desconfortam e, como insubordinados e transgressores, precisam ser eliminados pela domesticação castradora ou pela aniquilação física. O Brasil oficial, projeto de estado-nação fundado na exploração da terra, na escravização, na domesticação e na normatização dos corpos; é um empreendimento de destruição de corpos encantados não brancos. 

 

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em sua palestra no TED, “O perigo de uma única história”, nos chama atenção que é preciso olhar,  olhar de novo e olhar diferente. Osvaldo Carvalho com sua série Público Alvo, faz isso, mira nos corpos invisibilizados e nos provoca a olhar com maior proximidade e empatia quando nos transporta para a realidade dessas comunidades. As imagens denunciam a violência policial, o corre para se proteger das balas, o achaque, a dura, e contrasta com o uso das cores vibrantes das roupas dos moradores, como se descolassem daquele cenário. Todos sem rosto mas todos com corpos matáveis.

 

Esse episódio do Jacarezinho, assim como todo o dia que acordo no Brasil, me provoca ódio, e confesso que ele tem me motivado a continuar viva. Um ódio que me impulsiona, um desejo de ver essa extrema direita  acabada, aniquilada.

 

Precisamos acabar com o que conhecemos de Brasil oficial. Mudar as tintas das telas de Osvaldo.

 

A grande virada de mundo é a macumba.

 

Mais terreiro. Mais batucada!

 

Mas por hora, fora Bolsonaro e seus milicos!

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Bettine Silveira

Editora da revista Ignorância Times

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Rio de Janeiro

maio 2021