território livre  |  2021

 

ESTÉTICA DA PANDEMIA

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A leitura é uma grande aliada sempre, li nos últimos dias, dias de não carnaval, a história em quadrinhos Black Hole, de Charles Burns, e um ensaio da ativista boliviana Maria Galino que se intitula: “La pandemia es el capitalismo”.

 

Black Hole é aquela obra em quadrinhos em que você, a depender da época que está lendo, sentirá intensas sensações. É uma história precisa, fluida, uma narrativa primorosa de uma época recente, a arte é minunciosa, cheia de detalhe e inventividade. No Brasil saiu em dois volumes: o primeiro “Introdução à Biologia” e o segundo “Fim”.

 

Ler Black Hole hoje, nos dá uma dimensão diferente. Burns nos convoca a pensar num mundo onde a peste e as mutações físicas materializam a estética grotesca da doença. A obra se enquadra entre o terror e o trágico. Desenhada em preto e branco, mais preto do que branco eu diria, é nessa medida, no pesar a mão nos tons mais escuros, que se revela o clima que nos captura e nos arrasta para esse drama existencial daquele grupo de adolescentes nos anos 70.

 

Já o texto de Balbino, aborda entre outras coisas o léxico pandêmico, nos fazendo pensar que tipo de sociedade estamos vivendo. Neocapitalismo fascista.

 

Termos como isolamento, distanciamento social, toque de recolher, quarentena e bio-segurança, que poderíamos facilmente substituir bio por necro e segurança por vulnerabilidade, são típicos de uma sociedade sob um regime militar.

 

Mas o que a HQ e o texto têm em comum? Ambos nos apresentam uma sociedade autoritária, excludente e perversa. Não à toa, as pessoas infectadas pelo vírus, na HQ, se refugiam na floresta, longe dos olhares punitivos da comunidade e dos colegas.

 

Especula-se, e é bem possível, que Burns escreveu essa história numa alusão a epidemia do vírus da aids.

 

O que difere da peste do livro para agora é que o vírus de hoje não tem cara, nem deformações e nenhuma mutação visível, e talvez por isso, por não materializarmos e por não enxergarmos a deterioração do corpo, agimos com apatia diante das mais de 250.000 mortes.

 

Então a diferença entre elas é puramente estética.

 

Outros tempos, outra peste. Assim como lá, estamos agora experimentando a vulnerabilidade ante um perigo onipresente, invisível e incontrolável.

Se há algo que não é seguro é a vida.

E talvez por medo, nos sujeitemos a viver num grande quartel-general.

 

Não é fortaleza o que necessitamos e sim consciência de nossa vulnerabilidade. Quando tudo isso passar, precisamos recuperar a ideia de sujeitos sociais, pensar em coletividades, só assim não seremos paralisados pelo medo.

Nós estamos sendo diluídos pela fadiga, pela falta de ideias, pelo luto, pela incapacidade ou impossibilidade de reação.

 

E é isso que essa gente quer.

 

Precisamos de mudanças à luz da rebeldia, da criatividade e de outras e novas palavras.

 

Bettine Silveira

Pesquisadora, figurinista e editora Ignorância times

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Rio de Janeiro

fevereiro de 2021