território livre  |  2020

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NEGRA JHÔ

Cabeleireira Afro-baiana, Rainha,

Filha de Ogum com Iansã

 

 

Quando fui encontrar Negra Jhô no Pelourinho, já fui sabendo que encontraria uma mulher exuberante, pois já a conhecia da época em que trabalhei em Salvador. Mas a imagem dela toda de azul: roupa, turbante, maquiagem e até o batom... foi como se eu a visse pela primeira vez! Negra Jhô é daquelas pessoas múltiplas que a cada dia se recriam, tanto na estética quando no pensamento.

 

É a mãe África, com quem ela se identifica e se amalgama, fertilizada e frutificada na Bahia de Todos os Santos e Santas.  Uma mulher com muito a nos contar: 

Nasci no quilombo da Muribeca. Tenho dois filhos que eu pari e mais milhares que Deus me deu. Eu estou no Pelourinho que é meu palco. A estamparia entrou na minha vida, criança. Eu era criticada por gostar de roupas coloridas e estampas fortes. E nessa época eu ouvia que o negro não podia usar nem vermelho, nem amarelo, nem laranja. Eu sempre me achei diferente, autêntica e resistente. Eu trabalhava tinturando tecidos de saco, estampava e depois vestia. Nessa época eu conheci os tecidos étnicos, foi quando criei esse personagem: Nega Jhô.Sempre gostei de bijuterias grandes, maquiagem exótica, forte. E eu sempre me identifiquei com o étnico, por que eu sou a mulher ancestral. Me identifico mesmo com a mãe África.

 

Eu vou amarrando o tecido no corpo, e vendo o que fica melhor, mais bonito, e o que isso significa para mim sempre será de uma deusa negra, sempre, sempre!

 

Quando eu me visto com esses tecidos eu me vejo uma rainha.

E como esses tecidos chegam até a mim? Os amigos trazem de viagem, meu filho quando viaja traz pra mim. Compro tecido na Baixa do Sapateiro (bairro popular de Salvador) imitando o tecido africano, é tecido daqui, mas que eu faço com que pareça africano. Se eu gostar de uma cortina eu uso como tecido para me enrolar. Eu vejo, eu sinto, eu pego. O turbante também. A cada dia estou com um tecido diferente no meu Ori *. Uso tudo exagerado, a maquiagem, as bijus.... e desta forma eu vou ao enterro e a uma festa. Rainha sempre!

 

No carnaval, uso turbantes enormes, com um metro de tecido, e vários metros enrolados no meu corpo. Tudo é sinal de liberdade, criatividade. Isto é a beleza negra e a beleza vem de dentro para fora. E eu piso forte, sou mulher do candomblé. Eu danço magias, sou o quilombo, e sempre serei isso, sou filha de Ogum com Iansã”.

 

Neste momento, já próximo do final da conversa, passam vários meninos por nós, e todos pedem benção para Negra Jhô.  Ela me diz que são todos como uma família, os mais velhos são tios, os mais jovens são sobrinhos.

 

“É isso aqui é que vale (nesse momento ela toca em mim). A gente tem que se tocar, se respeitar, se emocionar. Precisamos viver na diversidade com tolerância”.

 

Jhô, é pura originalidade, força e criatividade em estado puro.

 

Obrigada Negra Jhô, pelo encontro.

 

 

(*) texto do livro Capulanas tecidos que Contam História

 

Bettine Silveira

Figurinista e

Estudiosa de culturas tradicionais e ancestrais

Autora do livro Capulanas Tecidos que Contam História

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Rio de Janeiro

nov 2020