Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

Fire 1 copy.png

 

 

 

Capulanas e Natureza 2020-05-07 at 16.00.55.jpeg

 

 

 

CAPULANAS E SUA RELAÇÃO COM A NATUREZA

O Conhecimento em Todos os Sentidos

 

 

Capítulo do livro

CAPULANAS TECIDOS QUE CONTAM HISTÓRIA

 

 

 

 

Não se pode falar de África, sem compreender a relação do homem africano com a natureza. Este homem se reconhece como parte integrante do universo através de ritos específicos, onde a dimensão religiosa está sempre presente. É nessa dinâmica participativa, Homem-Natureza, que o africano Bantu (grupo linguístico dominante na África Central, do Sul e parte da África Oriental) preserva a sua existência com o ser supremo. Deus (Nzambi), Espíritos (Bazimu), Seres Humanos (Banthu), Animais (Pinhama) os vegetais e os minerais são todos elementos em harmonia com o Universo, onde não há domínio ou superioridade; mas respeito recíproco, há participação e complementaridade (*) .

 

Para o antropólogo francês François Neyt, podemos dizer que as artes africanas se desenvolveram sobre quatro pilares: a pessoa, a comunidade, a natureza e a criação. Mas também sobre a tradição, o passado e a história. E nesses quatro pilares as artes africanas manifestaram-se com exuberância através de formas extraordinárias, que não representam a realidade tal qual a percebemos, mas que procuram representar os valores que estão além do real. Ver o que não vemos. Por meio disso os africanos criaram formas artísticas únicas no mundo.

 

Dito isso, é compreensível entender porque as capulanas são mais do que um tecido: transbordam história, antropologia, etnografia, sociologia, etnobotânica, zoobotânica, geografia, política e espiritualidade. Tudo na cultura africana nos leva a uma rede interconectada de conhecimento, tudo tem um sentido. As principais etapas da vida, como nascimento, iniciação, casamento e morte, são separadas umas das outras pelos ritos de passagem e têm tempos distintos em referência ao plantio, à caça e à colheita.

 

Em Moçambique, existem capulanas para todas essas etapas. Numa cerimônia de enterro, as viúvas usam a capulana branca e preta, para cobrir a cabeça e o rosto, escondendo seu choro. Já no Sul de Moçambique, segundo o pintor Malangatana, entrevistado para o livro “Capulanas e Lenços” (**), as mulheres da família do morto, têm por hábito, irem juntas à loja, comprarem capulanas com a mesma estampa, vestindo-as todas da mesma maneira durante o período de luto.

 

Os tecidos nas cores preta, branca e vermelha são usados na tradição de curanderismo, cores ligadas à magia. O mais típico é um grande sol vermelho cercado com triângulos pretos. Isso também se aplica aos Orixás desenhados nas capulanas, que nos mostram como a tradição se destina a manter as relações com os ancestrais e as entidades da natureza. São nessas experiências concretas da vida que a visão de mundo africana se revela.

 

As capulanas, assim como a tradição oral dos Griots, os contadores de história das aldeias, são elementos fundamentais da preservação e da transmissão do conhecimento.

 

Elas nos trazem esse imaginário estético e documental, narrando a cultura e a história da África impressas em seus tecidos.

 

 

 

 

(*) Artigo. A Visão Africana Em Relação À Natureza – Luis Tomas Domingos – Prof. Dr. UEPB

(**) Capulanas e Lenços. Vários autores. Coordenação editorial de Paola Rolletta. 3º Edição, Maputo, 2011.

 

Revista “Chinguirira. Portofólio Cultural”, nº 6. Publicação da Organização Still Standing, Maputo 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

Bettine Silveira

Figurinista e

Pesquisadora dos saberes ancestrais e tradicionais

 

 

Foto Bettine Silveira

Ilha de Moçambique

 

 

Maio 2020