território livre  |  2020

 

MARROCOS E O EXEMPLO AFRICANO DE CONTROLE DA PANDEMIA

 

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O esforço do Marrocos em mitigar a disseminação do novo coronavírus tem se mostrado eficaz: apesar de estar ao lado da Espanha, um dos focos mais graves da doença, até o momento o país africano conta com pouco mais de 13 mil casos confirmados e 232 mortes, o que lhe concedeu elogios de entidades internacionais. Mas o que fez o Marrocos tão eficiente no controle da pandemia?

 

Eu estive em Rabat em 2018 para estudar árabe e, desde então, tenho contato com pessoas que vivem lá, locais ou estrangeiras, as quais me passam algumas informações sobre o dia a dia marroquino. O primeiro aspecto que temos que nos atentar é que o Marrocos não é um país livre, sua monarquia se assemelha mais a uma ditadura que a uma democracia. Quando estive lá, vivi numa casa de uma família no subúrbio de Diour Jamaa, perto da Medina, e meu primeiro contato com a falta de liberdade e de oportunidades no Marrocos foi quanto à estrutura familiar que me recebeu: dos 3 filhos do casal, 2 estavam na Europa e o terceiro trabalhando em Tânger, mas também com objetivo de logo deixar seu país natal. As pessoas jovens não têm emprego e a única solução é abandonar seu lar em busca de uma vida melhor. Os pais, aposentados, complementavam sua renda abrindo sua casa para receber estudantes intercambistas, assim como os vizinhos, e ninguém falava qualquer coisa a respeito do governo, seja para elogiar ou criticar.
 

Ainda que não me falassem, eu via o terror por aspectos pequenos: havia trazido sacolas plásticas do Brasil para separar minhas coisas, e tive que prometer firmemente que as levaria de volta comigo, pois no Marrocos era proibido. Uma coisa simples, mas que pela ênfase eu notava que as complicações de cometer uma infração podiam ser extremas.

 

Nessa atmosfera draconiana que temos o sucesso do controle da COVID-19 em solo marroquino: lockdown total, que passa muito além dos direitos de qualquer cidadão. Enquanto nos países europeus, como a Espanha, se impunham multas pesadas a quem descumprisse a quarentena, no Marrocos ser pego na rua sem um documento assinado que autorizava sua saída para trabalhar em algo essencial, ou não estar a caminho de uma farmácia ou supermercado, simplesmente te colocava diretamente 3 meses na prisão. E uma prisão que ninguém gostaria de conhecer, uma vez que se sabe que os desafetos do governo chegaram a ficar em prisões secretas, como Ain Aouda, algumas subterrâneas no Saara, em condições subumanas, sem poder se levantar, esticar as pernas ou estarem sentados eretos, enjaulados e sujeitos a torturas, conforme narra o sobrevivente Abraham Serfaty, preso por 19 anos nestas condições por sua atividade política e literária. Não é necessário, portanto, cometer um crime de grande gravidade para receber uma punição severa.

 

No Marrocos protestos são proibidos, mas podemos ver pelas cidades alguns acontecendo, por falta de condições de trabalho ou falta de salários. Ainda assim, mesmo turistas ou estrangeiros não podem registrar esses acontecimentos, sob o risco de perderem seus celulares e câmeras. Nem sequer tirar fotos dos policiais podemos, o que demonstra como a liberdade de expressão está completamente cerceada. A polícia, de fato, trabalha para a monarquia e para o bem-estar dos turistas, principal fonte de renda do Marrocos, não para a população. Cometer uma infração contra um turista é passível de tortura; lembro de uma amiga que quase foi roubada por um rapaz na rua, o qual quando percebeu que ela era turista, faltou ajoelhar-se para lhe pedir perdão. As penas no Marrocos são duríssimas para quem investe contra a imagem do país.

 

Nesse caso, controlar o coronavírus entra nessa questão: a imagem turística do Marrocos. De fato, a infraestrutura de saúde marroquina é extremamente precária e não daria conta de absorver tantos casos como foi na Espanha, mas mais que isso, o cerceamento extremo que se viu por lá é uma tentativa maior de manter o país bem visto para as nações de turistas que lhe trazem dinheiro. A cada dia surgem ainda 30 a 100 casos em todo país, por mais que as medidas sejam severas, a circulação do vírus se mantém, e o receio de se perder o controle fez com que as medidas contra a circulação de pessoas fossem mais duras.

 

Desde o dia 24 de junho, algumas medidas foram relaxadas no Marrocos: em âmbito nacional, voos e descolamentos domésticos foram retomados; cafés, restaurantes, academias e o tradicional hammam foram permitidos funcionar com 50% de sua capacidade; e cidades foram separadas em zonas (1 e 2), onde cada qual teve medidas específicas de relaxamento, algumas tiveram a circulação de pessoas permitida respeitando-se o distanciamento social e em outras se reabriu o turismo doméstico. Foram 3 meses de lockdown extremo para uma gradativa reabertura das atividades cotidianas – com exceção das aulas – em consonância com a reabertura de atividades da Espanha, país vizinho. Considerando que os dados informados sobre o coronavírus em solo marroquino sejam de fato fiáveis, o Marrocos se configura em um exemplo de sucesso no controle da disseminação da COVID-19, mas certamente isso é resultado também da ausência de liberdade e de direitos civis plenos da população. 

 

Tal qual a China, o Marrocos desponta como exemplo pela sua capacidade de passar por cima da liberdade individual em favor do bem-estar social. Mas será que esse é o único meio de sucesso para se controlar uma pandemia? Em que medida o papel do Estado em prover segurança, saúde e prosperidade à nação deve interferir na autonomia de seus cidadãos, em que medida o respeito à lei e à ordem deve ser obtido pelo medo e pela coação? Certamente em lugares onde a crença nas instituições já está quebrada, por isso o êxito do Marrocos não deve ser celebrado, mas observado com cautela, uma vez que apenas estamos no começo do desenrolar desta pandemia e se demorará um tempo para se obter a vacina. As próximas fases nos dirão mais claramente se as atitudes despóticas são o caminho da salvação de nações politicamente falidas.

 

Celia Daniele Moreira de Souza

Mestra em História Comparada

Bicas - Minas Gerais

 

Foto Printerest

Julho 2020