território livre  |  2021

 

COELHOS

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O coelho de pelúcia estava largado na fronteira. Os dois garotos vieram, um de cada lado. Pegaram o coelho ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, gritaram: “é meu!”. Um puxava pelos braços e o outro pelas pernas. E berravam cada vez mais alto. Os pais vieram, balançando a cabeça e sorrindo. Olharam a cena e cada um disse ao outro garoto: “vamos, largue o coelhinho do meu filho”. Eles não largaram e cada pai resolveu ajudar seu garoto, puxando o coelho e gritando “é meu!”. As mães foram atraídas pelos gritos dos maridos, se aproximaram, secando as mãos nos aventais, e cada uma pulou nas costas do marido da outra, cravando as unhas neles. A barulheira aumentou, atraindo os outros filhos e os parentes, que vieram com porretes. Em meio a ossos quebrados e sangue escorrendo, acudiu toda a vizinhança para dar um basta naquilo, cada um com seu revólver. Os tiros chamaram a atenção das polícias, que tentaram acabar com aquela bagunça, atirando jatos d’água, balas de borracha e spray de pimenta. Os jornais e as tvs apareceram para fazer a cobertura. Com os noticiários se espalhando, cada um apontando os verdadeiros culpados, os presidentes falaram em cadeia nacional, apelando ao bom senso do outro e, por fim, pondo em ação seus exércitos. Os bombardeios, terrestres e aéreos, se sucederam por semanas, meses. Foi necessário convocar as 

populações dos dois países, começando pelos jovens, até chegar nos idosos, nos inválidos, nos loucos dos manicômios, nos internos dos hospitais e nos presos. Mas os combates seguiram se ampliando, cidade por cidade, bairro por bairro, rua por rua, casa a casa, ruína por ruína, até que não houvesse mais quem pudesse lutar. Então formou-se um conselho de sábios, com homens dos dois países. E por fim houve uma trégua. Os sábios montaram um tribunal para julgar os culpados. E, num domingo, os sobreviventes dos dois países, reunidos na fronteira, ouviram os hinos e assistiram de pé ao enforcamento do coelho.

 

Cesar Cardoso

Escritor e roteirista

facebook

Rio de Janeiro

 

ilustração

Julien Pacaud

Paris

 

agosto 2021