Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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COZINHAR  PODE SE TORNAR UM HÁBITO PÓS-PANDEMIA

 

 

 

 

 

Uma pesquisa feita na primeira quinzena de abril pela Hunter - uma empresa norte-americana de comunicação de alimentos e bebidas – e publicada pelo site “Food navigator-usa.com” - aponta que 54% das pessoas ouvidas, e que estavam ou estão em quarentena, cozinhando em suas casas, pretendem fazer do ato de cozinhar um hábito, pós-pandemia. Foram ouvidas 1005 pessoas com idades variando entre 18 e 73 anos.

 

Tenho acompanhado pela mídia e redes sociais a tentativa e o incentivo de diversas pessoas ao ato de cozinhar, aproveitando essa tal de quarentena (para os que podem se dar ao luxo de fazer quarentena domiciliar, é claro). Profissionais – como Bela Gil e Rita Lobo – usam as suas redes sociais para darem dicas e ensinamentos culinários para quem quiser ir pra a cozinha.

 

Nunca vi tanta gente falando de comida (e bebida) nas redes sociais como estou vendo agora nesta quarentena.

 

Chefes famosos e outros nem tanto postando vídeos, fazendo lives de preparação de receitas rápidas e simples (e, certamente, gostosas), cozinheiros semiprofissionais fazendo o mesmo, cozinheiros caseiros postando fotos e vídeos de suas últimas “criações”. E isto sem falar na turma dos drinques.

 

Sem dúvida, a quarentena está servindo para as pessoas (re)descobrirem a cozinha. E os cozinheiros neófitos, gente que achava que a cozinha era uma nave espacial, mantendo um certo “distanciamento social” do fogão, estão descobrindo o óbvio: cozinhar é fácil, prazeroso e não tem nenhum mistério.

 

Alternativa alimentar

 

Um dos pilares para se construir um sistema alternativo de alimentação, fugindo das armadilhas alimentares provocadas pelos ultraprocessados industriais, é cozinhar, fazer a nossa própria comida.

Se, quando acabar o tal do isolamento social, esse povo todo continuar cozinhando, aí sim, estaríamos nos aproximando dessa alternativa.

 

Além de prazeroso, esse é um ato saudável, pois, como se sabe, cozinhar nos ajuda a controlar o que comemos, a nossa alimentação.

 

Cai o consumo de arroz e feijão

 

Uma mudança de paradigma seria fazer com que as pessoas passassem a ter uma alimentação mais saudável, cozinhando sua própria comida, comendo mais produtos naturais ou minimamente processados. Dessa forma se evitaria, por exemplo, o aumento da obesidade, que já é um problema de saúde pública em países como os Estados Unidos e mesmo no Brasil.

 

Divulgada no início de abri), a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, mostrou que, em 15 anos (entre 2003 e 2018) o consumo de arroz e feijão caiu 40% na mesa do brasileiro, perdendo espaço para comida industrializada, ou seja, os alimentos ultraprocessados.

(Realizada desde a década de 1970, a POF é um levantamento detalhado em relação aos padrões de consumo dos brasileiros. Nesta edição o IBGE pesquisou cerca de 58 mil dos 70 milhões de lares brasileiros, em 1,9 mil cidades.)

 

A população está comendo menos cereais, dando preferência a produtos como biscoitos, doces, sorvetes e refrigerante. O consumo de alimentos preparados industrialmente cresceu 56% em 15 anos.

 

Obesidade e capitalismo

 

Está mais do que comprovado que o consumo de alimentos ultraprocessados contribui para o aumento da obesidade. Segundo o Ministério da Saúde, o país ganha um milhão de novos obesos por ano, que hoje somam 20% da população.

 

“Todos os anos, a população dos Estados Unidos gasta mais dinheiro em dieta do que a quantidade necessária para alimentar todas as pessoas famintas no resto do mundo. A obesidade é uma vitória dupla para o consumismo. Em vez de comer pouco, o que levará à contração econômica, as pessoas comem demais e então compram produtos para dieta – contribuindo duplamente para o crescimento econômico”.

Isso aí em cima está na página 359 do badalado “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, do historiador israelense Yuval Noah Harari, na parte do livro em que ele nos apresenta o que chama de ética consumista.

 

Segundo ele, “o florescimento da ética consumista é mais visível no mercado de alimentos”.

 

Ou seja, vamos para a cozinha!


 

 

 

 

 

 

 

 

Chico Junior

Jornalista

Rio de Janeiro

 

 

 

Wolf Silveri

Fotógrafo

Viena

 

maio 2020