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MAJESTADE DOS DIAS

 

 

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Há alguns anos, em um período intenso de investigações sobre o corpo, que abordava relações, comportamento, lugar, cultura, li um estudo que sugeria que os hábitos sociais seriam fortemente influenciados pela forma como são tratados os bebês.

 

Associavam o canibalismo e outros atos violentos ao fato de que os recém-nascidos de certas tribos eram mantidos atados em placas retas que impediam qualquer movimento, enquanto que os esquimós – carregados nas costas da mãe e em contato direto com a pele – cresciam com liberdades relativas ao tempo/espaço e tinham sua generosidade estimulada pelo movimento constante que os faria, já em tenra idade, vivenciar o evidente arredondamento do lugar, as curvas de espaço e vida.

 

Não fui mais fundo nesta busca, visto que meu foco era outro, mas guardei a informação, até mesmo como forma de sustentar delicadas memórias da infância, onde os arredondamentos eram a majestade dos dias. Tudo era curvo naqueles territórios da cidade pequena com água límpida e farta, mato fechado de mistério e cheiros, coexistências sublimes sob um céu que, igualmente, curvava-se sobre nós em aconchego e bênção. Para mim, tudo era redondo; não só a terra, mas a curva da vida, trajetando em chão batido, espirais incertas.

 

Eu contava estrelas. Dividia o céu em compartimentos e tentava, noite após noite, concluir a conta. Não demorou muito para que percebesse que o céu mudava, rodava feito roda de parque e me deixava zonza com sua geografia do impreciso. A abóboda do céu fluía, movimento intenso e dimensões múltiplas.

 

Mas, se a contagem das estrelas foi frustrada, estar entre elas foi tarefa de muito êxito. No mesmo quintal, havia tonéis cheios de água de matar a sede dos bichos. Ao entardecer, a bicharada se recolhia para descansar e eu mergulhava inteira naquela água da sede morta, só a cabeça de fora, a olhar o céu, que ainda guardava restos de azul. E, como a água também me parecia azul, tudo se arredondava azulado juntando os mundos do céu e do meu pequeno tonel. Dali, eu via estrelas surgindo céu afora e, naquele pertencimento curvo, eu virava estrela d’água despontando no azul molhado de meu chão.

 

Eram tempos fartos; minhas mãos pequenas cavavam valas de deitar sementes e colhiam a água do rio pra aliviar a sede, sem qualquer chance de imaginar os venenos futuros que eu ainda veria nascer a mutilar a fertilidade da terra-mãe.

 

Aquela plenitude de horizontes e espaços amplos é, hoje, memória que consola e dói. Consola a graça de tê-la vivido a tramar os fios de minha humanidade. A dor fica por conta da brutal ocupação do espaço por tanto cimento não civilizado, não sensível, desumano. O implacável vírus da ocupação humana, o lancinante extermínio do ventre que tudo cria e a tudo ampara.

 

Minha capacidade de entendimento é um lapso. Vacilo. A confusão me engole. Que inspiração funesta é essa que só o que quer é fazer da exuberância tamanha penúria? Será que são corpos crescidos na imobilidade das placas arretadas, estagnados, imóveis em suas corridas sem freio e sem rumo? E como correm! Corpos em velocidades alucinadas e retas negando a sagrada curva do ventre que os pariu. Insaciáveis em suas ânsias de ascensão e acúmulo.

 

E eu, parceira dos tantos que ainda contam estrelas, que viram estrelas mergulhados na curva do abraço que une o céu ao chão, que se esparramam a dividir sonho e cifra, porque sabem que tudo que é dividido é aumento e que o acúmulo é o tirano que rouba do corpo o movimento. Eu, tão esquimó, índio, floresta, bicho do mato criado em curvo chão, escorro rios de amor e compaixão por esta terra mãe adoecida, por suas tetas murchas, carbonizadas, caídas em exaustão ante as tantas mordidas ávidas dos insaciáveis eretos, imóveis em sua prontidão vertical, em suas verdades de vetor único, militantes de fatais missões da solidão ereta, arretada em cego saber.

daggi dornelles

bailarina, coreógrafa, performer e professora

 

foto

frank jeske

 

São Leopoldo- RS

fevereiro 2021