território livre  |  2020

 

 

 

ESTABANADA E ISOLADA

 

 

 


 

Barulho agudo.

Cacos pontudos.

Verde esfumaçado.

 

Uma pequena pilha de tacinhas de cerâmica caiu na bancada, se espatifando em pedaços irreconciliáveis.

 

Uma delas, a mais alta, já estava emendada após uma queda prévia. Eu até que curtia meu experimento em kintsugi, a arte japonesa de valorizar os objetos quebrados ao consertar eles com fendas douradas. Essa taça tinha lábios finos, um prazer tátil, discreto que eu sempre tive, e por isso guardei essa “filha única” por tanto tempo. As fendas foram tomando cor de café, a cada ritual matinal, e relegando ao passado o primeiro incidente.

 

Eu também quebrei um par de copinhos bi-colores mais parrudos, feitos pela mina amiga Nana. Tom de gelo do lado de fora, e um espiral verde-água e cinza por dentro. Esses vão me fazer muita falta, sobretudo porque não faço idéia de quando vou poder retornar ao Brasil e dar um pito, um oi estridente antes de me jogar num abraço com a Nana. A idéia de um abraço costela-com-costela com uma amiga de infância ricocheteia no meu peito e evapora num esquecimento antecipado. 

 

Mal consigo distinguir se fiquei mais mão de manteiga recentemente ou se é a falta de eventos de nota que fez essas ocorrências domésticas e banais mais perceptíveis, mas fato é que a minha cozinha está sofrendo baixas.

 

Eu pensava que minha bancada era resistente, a sua superfície de pedra inabalável. Agora, olhando a constelação de arranhões, piscadelas de giz, penso que solidez é supervalorização, e esses objetos quebráveis me acordam pro fato de que colisões deixam todas as superfícies marcadas pelo encontro repentino. Esses riscos na área de preparo de comida, agora vão reter restos quase invisíveis de sujeira, enquanto eu descubro como solucionar essa marca.

 

Vasos de flor, tampas de assadeira, copos de vinho.

Escorregados, quebrados.

Varridos, aspirados.

Talvez com luto, nenhum substituído.

Ausência também é um evento.

Quiça as coisas precisem ser fragmentadas para que a gente possa se nutrir da resiliência delas.

 

 

 

Karen Sztajnberg

Filmaker

Knot films

 

 

Nova Iorque

junho 2020

 

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