território livre  |  2020

 

COMO DEFORMAR O FUTURO LEITOR

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Sempre me fascinou o universo da literatura infanto-juvenil. Principalmente pela possibilidade que o escritor tem de dialogar com o público de gerações mais novas, o que é sempre um desafio, mas também porque era uma área que prometia muito: eu entrava nas livrarias e via aqueles milhares de títulos em destaque num local reservado e fofo, autores que eu nunca tinha ouvido falar, vendedores aparentemente qualificados sugerindo livros de acordo com a faixa etária & nível cultural.

Era um mundo à parte. Os títulos eram bizarros e meio uniformizados, mas prometiam: O Mistério do, O Enigma da, O Segredo dos, A Lenda das, Em Busca dos. Tinha ritos de passagem, mundos mágicos, fronteiras indevassáveis, confusões em alto mar. Parecia com as matérias do Discovery. As tiragens dos livros, então, eram impressionantes, coisa de primeiro mundo mesmo: 10 mil, 30 mil. Quando batia o olho na capa de alguns livros e via o número da edição, ficava alucinado: 17a. edição, 32a.

reimpressão, a coisa estava pau a pau com a literatura espírita. Ou seja, um filão a ser explorado. Mergulhei nessa área de corpo e alma e escrevi meu primeiro livro para adolescentes, para o público juvenil, desses que são adotados em escolas. Publiquei e ganhei um prêmio, botaram lá na capa da 2a. edição ALTAMENTE RECOMENDÁVEL

Chegou até a quarta edição e morreu na praia, pois percebi eu havia um lobby de editoras, uma espécie de cartel de quatro ou cinco que dominavam o mercado e não largariam o osso tão cedo.

Dois meses depois, surpreendida com o sucesso, a editora me pediu outro livro. E eu perguntei: Vocês querem de mussarela ou calabresa? Diante da estupefação geral dos editores, eu disse: Pessoal, eu não sou pizzaria, sou um escritor. Quando pintar, pintou.

 

Escrever não é fácil, tem que surgir uma ideia, tem que lapidar, arredondar, curtir a história, construir os personagens, isso leva tempo. Eles não entenderam. E eu muito menos. Afinal, pensei, se o pessoal leva de dois a quatro anos para escrever um livro para adulto, para o público juvenil, deve levar muito tempo, porque é mais difícil. Além de contar uma história, você tem que adequar todos os parâmetros, embutir um objetivo, colocar uma mensagem sem passar a ideia de didatismo ou pedantismo, a coisa tem que fluir da maneira mais livre e honesta possível. Ao contrário do que se pensa, o público juvenil é muito exigente.

 

Mais por intuição, é verdade. Vacilou, dançou. A verossimilhança com a realidade tem que ser rigorosa. Afinal, não estamos escrevendo só para contar uma história, somos também responsáveis por despertar no jovem a vontade de ler, o amor à literatura, o interesse em saber no que consiste afinal esse negócio de livro, de uma trama, de um enredo, de um personagem. Escrever livros para o público adolescente é de uma responsabilidade muito maior do que escrever para o público adulto. A gente tem que ter em mente que aquele livro pode ser o primeiro que lhe cai nas mãos. Será através dele que o jovem, o aluno, vai ganhar gosto pela leitura ou desprezá-la para sempre.

 

E aí, meus caros, aconteceu a minha primeira decepção em relação à área infanto-juvenil. Percebi que as editoras (com honrosas exceções) encaram o livro paradidático como um comércio qualquer, igualzinho à área adulta. O que é uma irresponsabilidade muito maior, pois o aspecto didático e pedagógico é quase sempre negligenciado. Elas publicam livros certinhos, sem maiores ousadias, escritos de forma bastante conservadora - tanto na sua forma, como em seu conteúdo - para serem adotados por um vasto segmento de professores - em geral mal remunerados e ignorantes, que não querem ter problemas de entendimento ou interpretação por parte dos alunos. Há quase 30 anos, os alunos são bombardeados pelo mesmo livro, só mudam os títulos. A literatura para adolescente geralmente peca pelo excesso ou pela falta. Há um exagero de simplificações e didatismo de um lado, e uma falta de sensibilidade por outro. O resultado são livros politicamente corretos e desinteressantes, que dizem mais da visão de mundo do autor do que do leitor. Por incrível que pareça, o que falta nesses livros é literatura.

 

O meu primeiro livro juvenil saiu em 1995, o segundo em 2002. E aí eu pensei: Será incompetência da minha parte ou excesso de zelo? Todos os meus colegas de profissão entregavam religiosamente um livro novo a cada seis meses. As editoras já tinham lá as suas regras prontinhas, era uma espécie de fôrma, como se o pessoal jogasse cimento dentro de um recipiente previamente testado em relação ao público. Os professores recebiam o livro diretamente das editoras no aconchego de suas casas, não liam, não avaliavam, mas adotavam. Tudo como manda o figurino. Afinal, em time que está ganhando, não se mexe.

 

A impressão que eu tenho que é a área infanto-juvenil se basta, ela está muito satisfeita consigo mesma e aí, meus caros, o círculo vicioso se fecha. A equação é simples e trágica: os coordenadores e professores de Português dos colégios só adotam livros que estejam de acordo com seus parâmetros, as editoras já sabem disso e aceitam as condições; portanto, só publicam livros que serão aceitos pelo mercado. Os escritores, por sua vez, também aceitam tudo isso e só escrevem livros que estejam dentro das regras impostas previamente. E todo mundo fica feliz. Só quem não recebe o que precisa é o aluno, o adolescente, que não consegue ter voz ativa, só lê o que lhe impõem goela abaixo. O resto, é exceção. Mas, como sabemos todos, não é de exceções que vive o universo adolescente, ele vive de regras.

 

A imprensa teria um papel fundamental nesse negócio. Ela teria que ter um grupo de críticos e resenhistas especializados para fazer o que eles sempre fizeram em relação à literatura adulta: avaliar os prós e os contras, ressaltar as virtudes e defeitos de cada exemplar, descobrir escritores novos, ideias mais transgressivas e ousadas, propostas de narração inovadoras etc.. Isso seria de enorme valia tanto para os pais quanto para os professores no intuito de escolher os títulos dos livros. Mas a imprensa, como se sabe, não faz isso, não tem espaço nem interesse. Afinal, eles dizem, o livro vai ser adotado mesmo.

 

Resultado: esse novo filão literário, que foi inventado mais ou menos por volta de 1972 ou 1973 com o objetivo de preencher a lacuna entre o gibi e os clássicos da literatura brasileira, não deu os resultados esperados. Hoje, não temos mais leitores do que na década de 70. Pelo contrário: temos menos. Ou seja, a literatura paradidática não vingou. Simplesmente (repito de novo: com honrosas e escassas exceções) ela carece de literatura fluente, de literatura propriamente dita, de ficção. Eu nunca acordei pela manhã e disse: “Hoje, vou escrever um livro juvenil”. Não. Eu digo: “Hoje, vou escrever um livro”. Um livro normal, com todas as características da boa ficção, com trama, enredo, com suspense ou não, mas sem ficar pensando se o jovem vai ou não entender esta ou aquela palavra. O adolescente não é burro, ele sabe preencher as lacunas com a maior criatividade e competência. Ninguém deve, de antemão, subestimar a capacidade imaginativa do jovem. Isso é um erro. Por isso, o bom e honesto escritor de literatura juvenil deve continuar remando contra a corrente

 

Um livro previamente arquitetado, com destino certo, é apenas um meio livro, ainda não é ficção; se ele não transgride as regras adotadas pelas editoras e pela sociedade, sua literatura não é arte; se ele não faz com que o adolescente reflita sobre sua condição social, ele é um livro artificial, concebido de cima para baixo, com a eterna intenção de continuar mantendo o adolescente sob rédea curta. Mais que nunca, o jovem de hoje precisa de arte e não de livros que o coloquem numa condição de inferioridade em relação ao professor.

 

Duvidem de escritores de livros infanto-juvenis que têm mais títulos publicados do que a idade que possuem. Esses não são artistas, são comerciantes.

Furio Lonza

Escritor e dramaturgo

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Rio de Janeiro

nov 2020