território livre  |  2020

 

LITERATURA TIPO ASSIM

 

 

Ela só tinha 22 aninhos e muita vontade de escrever. Depois de muita batalha, publicou seu primeiro livro. E viu que ele era bom. Recebeu muitos elogios de amigos e parentes, mas sabia que estava apenas começando. Faltava muito ainda para ser considerada uma escritora de verdade.

De repente, dos bastidores, surge um convite inesperado: Você não gostaria de participar de um debate sobre personagens femininas na literatura brasileira? Assustou-se, pois seu livro não contemplava propriamente esse viés. Até tentou argumentar: disse que nem todas as suas personagens eram mulheres, seu livro era mais diversificado. Não importa, disseram, topas?

 

Ela topou e foi o estopim. Dois dias mais tarde, uma grande editora convidou-a para publicar um segundo livro. Ela disse que não tinha. Seu segundo livro era apenas um embrião. Não importa, disseram, topas?

Ela topou e o livro saiu; alguns contos tinham apenas o título, outros, umas poucas linhas, e aquilo foi considerado pela mídia como uma ousadia estilística. Páginas e páginas dos suplementos literários deram destaque, com fotos, entrevistas, críticas.

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Assustou-se novamente, pois não sabia a que atribuir o fenômeno. Em seguida, saiu a lista dos escritores que iriam à Feira do Livro de Frankfurt e seu nome estava nele. Ela só tinha 23 aninhos e já era considerada um expoente das letras brasileiras. A mesma editora insistiu num terceiro livro e, desta vez, ela declinou: não queria se tornar um casuísmo literário, ela queria vencer pelos próprios méritos. Mas não adiantou: foram persuasivos e prometeram um adiantamento irrecusável. Com o aluguel atrasado, topou, escreveu um romance meia-boca a toque de caixa e o livro ganhou o Jabuti.

 

Eram forças estranhas que a impulsionavam e ela começou a perceber que não dependia dela. Nem de sua escrita. Nem de sua imaginação e muito menos de sua criatividade. Hoje, ela está com 24 aninhos, participa de debates sobre a importância das personagens femininas, dá conferências pelo Brasil afora, casou com seu editor e mora num dúplex na avenida Higienópolis. Não está feliz, mas não se pode ter tudo na vida, não é mesmo?

Furio Lonza

Escritor e dramaturgo

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Rio de Janeiro

 

agosto 2020