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A MORTE DO PRETÉRITO PERFEITO

 

 

Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, era um burocrata ingênuo e idealista que empenhava todas as suas forças num quixotesco nacionalismo, pregando, entre outras práticas, a adoção do tupi-guarani como idioma oficial brasileiro. Embora não fosse uma causa pequena e uma preocupação ordinária em si, tornava-se assim pela pouca adesão com que era recebida, sendo tratada como anacrônica e irrelevante. Seu autor visto como louco. Sem nem chegar a este extremo, tenho também meus dias de Policarpo, de vez em quando fico preocupado com pequenas questões que, presunçosamente, só eu enxergo, e me vem o desejo de reclamar de coisas que eles acham sem importância.

 

 

Com as redes sociais abertas a qualquer tipo de comentário, resolvi apelar ao Facebook para reclamar de algo prosaico: a morte do Pretérito Perfeito. Porém, como esse desejo aconteceu bem na época das sacanagens políticas que culminaram no golpe de 2016, desisti de tamanha frivolidade em meio a um montão de denúncias e discussões sérias. Todo mundo só conseguia falar de política. Estavam certos. Depois veio o assassinato de Marielle, a eleição do Coiso, mais genocídios, o avanço das trevas... Tudo piorou.

Mas o que seria essa “abobrinha” reprimida? E a tal morte do Pretérito Perfeito? Explico. Já notaram que agora todo mundo se refere a fatos passados como se fossem no presente? Tipo: “aí, em 1945, Getúlio Vargas renuncia”. Isso é um absurdo, um abandono covarde do tempo verbal correto. Sendo bem cri-cri, pergunto: 1945 é hoje? Não. O Pretérito morreu, ou melhor, o pretérito morre, mas por que e quando? Se abandonaram o Pretérito Perfeito o que terá acontecido com o pernóstico Pretérito-mais-que-perfeito?  Imaginem hoje alguém falando “Getulio renunciara” se nem “renunciou” se pode dizer. E o Pretérito-Imperfeito (renunciava) então? Sem imunidade e foro privilegiado dos perfeitos, ele deve ter sido assassinado, esquartejado e jogado na vala do lugar comum. O pior cemitério pra qualquer verbo.

 

Outra questão que está trancada na minha garganta, é o uso do VAR no futebol. Não me refiro as já costumeiras queixas da demora, da possível perda da emoção, do fim das discussões entre torcedores, não. Para mim, a percepção do juiz quando revisa os lances é diferente da percepção na hora que acontecem os lances. Uma falta, por exemplo, sempre parece mais violenta no VAR. Com câmera lenta, pior ainda, quem não sabe do efeito dramático do slow-motion? Mas certamente não foi nenhum diretor de cinema que criou o VAR, mas deviam alertar sobre isso. Outro aspecto que não é levado em conta: simplesmente não se pode voltar ao passado. Como já se disse Karl Marx e tantas vezes foi repetido: o passado só se repete como farsa. O replay que o árbitro vê é uma farsa. A física quântica diz que, se pudéssemos voltar ao passado não necessariamente o mesmo acontecimento, testemunhado no presente, se repetiria. O passado e o presente podem acontecer simultâneos, ou seja, o VAR não prova que o jogador cometeu o pênalti nem no primeiro tempo, nem no segundo tempo, nem em 1962, 1974 ou 2020, e como diria o Luís Fernando Veríssimo, essas injustiças do VAR associadas a física quântica acontecem muito com Internacional. Concordo. E tudo isso não absolve aqueles que cometem o pecado do assassinato dos Pretéritos.

 

Mas esses tempos, ou todos os tempos quânticos ao mesmo tempo, trouxeram alguma amargura. Não é só abandono da vontade de expressar ideias prosaicas de um Policarpo Quaresma que me foram autosubtraídas, mas também a falta de vontade de assumir qualquer “eu”, qualquer manifestação escrita em primeira pessoa, no presente ou no pretérito, mesmo o mais que perfeito. Reação diante da barbárie que avança? Temo que o “eu” sério e preocupado com os destinos da nação se tornou tão irrelevante quanto o “eu” frívolo das preocupações banais. A “solução” seria falar de assuntos ainda mais sérios e importantes, e em que meios? Vamos ver, tomando cuidado de não repetir Policarpo Quaresma: ao protestar contra uma injustiça cometida por militares acabou fuzilado. As coisas já estão muito tristes aqui pelo Meio. Melhor não terminar num Triste Fim dos Policarpos Quaresma.

Gil Rodrigues 

Jornalista, roteirista       

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Rio de Janeiro

 

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nov 2020