território livre  |  2021

 

O PORTUGUÊS QUE ME PARIU

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Em artigo publicado na edição n°10 da Ignorância Times, descrevi meu desânimo para escrever qualquer coisa nas redes sociais que não fosse sobre política. Que sentido tem falar sobre o VAR, por exemplo, quando ainda morrem quase mil pessoas de covid, diariamente, no Brasil governado pelo mentecapto? Uma dessas preocupações-abobrinhas deixadas de fora do texto, foi o dilema da sub-reptícia infiltração, por via de más traduções literais, de palavras em inglês na língua portuguesa. Uma realidade sem volta. Nunca mais alguém vai falar em “fortalecimento das mulheres”, por exemplo, em vez de “empoderamento”. Hoje, estamos na iminência da adoção definitiva da palavra audiência no lugar de plateia. Audiência é aquela medida pelo Ibope, e não significa plateia como andam traduzindo. Plateia é a que senta na frente de uma tela de cinema ou assiste a uma peça de teatro, assim se fala na língua de Camões, Fernando Pessoa e Roberto Leal. 

 

Não queria mesmo falar sobre essas venalidades do dia-a-dia, porém, nesse meio tempo, me deparei com uma avalanche de termos em inglês, colocados com abusivas pretensões de modernidade. Como isso se aplica de uma maneira até cruel no mercado de trabalho, dourando a pílula da exploração, descobri a relevância social e política do assunto e, portanto, me encoragei a falar.

 

Vejam que situação:  respondi ao anúncio de uma proposta de emprego para formados em jornalismo, publicidade e áreas afins, que me dizia ser necessário, para concorrer à vaga, entender muito de UX/performancepush e escrita sharp, além de desejáveis conhecimentos em UX writing e ter, ou ser, mindset data centred e protagonista dentro do time lead. Mas fiquei mais aliviado quando descobri que a empresa tem um único propósito na sua signedboosting people, além de possuir muitos booster´s, será que esses são os famosos “colaboradores”, um eufemismo para funcionários fodidos e mal-pagos? E vejam bem, atenção, a empresa é um coding school. Get in? 

 

E tem mais, dias depois o Linked-In me veio com uma novidade arrebatadora, havia grandes oportunidades para trabalhar como Head Of Performance MarketingClient Success Project ManagerGerente de Growth, e melhor: Especialista Front-End, mas teria que ser React e Vue! Fico imaginando como seria incrível trabalhar junto com um Gerente de Growth bem ali no Front-End, ficar até as tampas, turbinado, de atitude de React e Vue. Achei bestial! 

 

Isso tudo me dá a impressão que, do jeito que a coisa vai, João Dória e Roberto Justus vão entrar na Academia Brasileira de Letras e redigir a nova Gramática Normativa da Língua Portuguesa. Como diziam Beavis and Butt-Head: Doria e Justus, rules! 

 

Não é apenas uma questão do uso de termos que se pretendem moderninhos mas na verdade só conseguem ser cafonas, com seu léxico fajuto, que sequer tem correspondência e uso tal e qual nos Estados Unidos ou Inglaterra, um tipo de inglês criado por “Miami Boys” brasileiros e “Farialimers”; em geral é uma linguagem pra mascarar trabalhos cada vez mais precarizados e sem direitos. Nos oferecem um convite pra entrar na festa onde só são aceitos os descolados, os que estão por dentro de todas as novidades, os que dominam a tecnologia, aqueles que têm “iniciativa” e criatividade pra ser, muito, explorada. No final os trabalhadores, simples mortais, não farão mais que papel de garçom no festim. É como essas igrejas neo-pentecostais onde as pessoas se identificam e se sentem parte de um grupo, mas quem ganha mesmo é o Pastor.  

 


Publicando essas inquietações no Facebook, recebi muitas respostas de amigos impressionados com essa linguagem de comunicação corporativa e que, exposta, acaba se tornando ridícula. Mesmo que os “ux perfomers” não achem e usem isso no dia-a-dia de uma agência de publicidade, como testemunhou a mensagem de uma amiga.

 

Contudo, abobrinhas de linguagem continuam me atormentando: por que o jogador de futebol não dá mais um passe para o gol, e sim dá assistência?

 

Desde quando o pessoal fala de acontecimentos no passado com o verbo no tempo presente? Tipo: “Militares dão golpe em 1964”, bom, essa frase até entendo que seja dita no nosso infeliz tempo presente. E pensando nisso, e na milicada dirigindo seus tanques Ford Bigode, veio-me em mente uma expressão inglêsa que todo mundo entende, mesmo não traduzida para o português: fuck you!

 

 

Gil Rodrigues

Editor da Revist ignorância Times, jornalista e roteirista

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agosto 2021