território livre  |  2020

 

ISOLADOS DURANTE O DIA, PODEMOS SAIR À NOITE

 

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Depois de vestir o equipamento entro lentamente na água do mar, mergulho e eles se aproximam. São 4 lobos marinhos, brincam comigo. Continuo nadando no azul até que de repente bato o corpo contra um vidro. Olho para os lados, eu e os lobos estamos presos e percebo que estou mergulhando dentro de um aquário. Acordo.

 

Esse foi um dos meus sonhos nesse período de isolamento social. Em outra noite sonhei que estava na cadeia, e tentava conhecer e organizar as outras companheiras. 

Tirando esses dois bem óbvios, meus outros sonhos estão ainda mais vívidos, coloridos e longos  neste período de quarentena do que já costumavam ser.

 

Sonhava mergulhar com lobos marinhos há anos (realizei em 2018). Mas enquanto sonhava com esse momento, no sentido de desejar, sonhava com ele, ao adormecer.

Sigo muitas noites sonhando com o mar. Sonho com baleias: orca, azul, cachalote. Sonho que nado com elas, que as vejo em tanques, que sou elas. E enquanto não realizo o desejo de vê-las e tocá-las, sigo sonhando com elas.

 

"O mundo do sonho é silencioso como o mundo submarino. Por isso faz bem sonhar" 

Mario Quintana

 

Não são só os meus sonhos que estão mais longos e vívidos nesses três meses de isolamento social. Muitos relatos sobre esse fenômeno pipocam nas redes sociais, e pesquisadores, no Brasil e no mundo, já estão coletando os "sonhos da quarentena". Quem primeiro levantou essa questão por aqui foi Sidarta Ribeiro, neurocientista que há anos se dedica a unir os conhecimentos científicos à sabedorias ancestrais sobre nossos sonhos. Em seu livro Oráculo da Noite ele esmiúça esse mundo em que mergulhamos enquanto dormimos. Em muitas lives ele está falando que nossos sonhos dizem, coletivamente, desse período que atravessamos, coletivamente. Por isso os estudos. 

Não é a primeira vez que se coleta sonhos em períodos de traumas coletivos. Em 1933, na Alemanha, a escritora Charlotte Beradt andava tendo pesadelos onde leis e terrores da ditadura nazista pareciam infiltrar-se. Estaria sozinha? Para descobrir, Charlotte entrevistou 300 berlinenses sobre seus sonhos. Ela buscava encontrar, não o terror individual, mas o fio condutor que deixavam os sonhos coletivos… O terror comunitário.

 

Falar de sonhos é muito caro à mim. Sempre sonhei muito. Porém vivi quase dez anos com insônia. A falta de sono me roubava os sonhos. E a tranquilidade.

"E aí que tenho insônia. Eu sei... mas acho que vai passar dia desses. Só ainda não sei como. E tudo se misturou na minha cabeça que agora anda perturbada nem sei porque… e essa noite vi o dia amanhecer de olhos abertos. Adoro sonhar. E sonho deliciosamente muito. Sonho em cores, com trilha sonora e ângulos diversos. Mas a insônia me priva de sonhar mais... e ela tá me perturbando agora talvez mais que antes. Só porque, justamente, tempos atrás eu achei que ela tinha cessado." 

Roberta Nader, Agosto de 2010

 

A insônia teve um peso tão grande em minha vida que durante os anos que ela estava no auge virou um quase monotema pra mim. Escrevia sobre minha insônia, pesquisava sobre insônia, falava sobre insônia com amigos. Os médicos, os tantos que procurei, só tinham uma única solução: remédio para dormir. Usei por poucos anos e logo percebi que entrava no mundo errado. O mundo sem sonhos, sem cores e sem complexidade do sistema capitalista ocidental.

"os remédios hipnóticos são remédios que produzem simulacro de sono, eles dão uma desligada no cérebro. Não é um sono reparador, atrapalham os sonhos" 

Sidarta Ribeiro

 

Tive que sozinha mudar a direção: busquei guias para me orientar na trajetória, conheci plantas, chás diversos, yoga, meditação, escalda-pés, questões que envolviam barulhos e luzes de uma cidade moldada para não dormirmos. Parei com as químicas e troquei por rituais noturnos que me embalam para o mundo particular do sono e dos sonhos (talvez o último mundo não colonizado que nos restou). Por volta de 2018 senti que tinha curado minha insônia de maneira natural. Bem mais complicada, profunda, e sem respostas óbvias que uma pílula, mas, talvez, a maneira verdadeira. 

 

 

O CAPITALISMO ESTÁ COLONIZANDO NOSSO SONO. E COM ELE NOSSOS SONHOS. 

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Em seu livro 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono o norte-americano Jonathan Crary diz que “existem agora pouquíssimos interlúdios significativos na existência humana (com a exceção colossal do sono) que não tenham sido permeados ou apropriados pelo tempo de trabalho, pelo consumo ou pelo marketing” porém, esse último refúgio, o sono e o descanso, já está sendo tomado há alguns anos. E a gente não tá nem percebendo. Os aparelhos eletrônicos que nos permitem comprar e trabalhar sem cessar, são os mesmo que emitem a luz azul que, fisicamente falando, não permite que o cérebro produza melatonina, o hormônio do sono. A consequência de um mundo "aberto 24h" é que nossa média de sono foi roubada em 2 horas, dos anos 60 até hoje. 

Não à toa brinquei com o significado de sonho no sentido de sonhar e no sentido de "desejar" no início do texto. Transformamos o significado de uma palavra tão sagrada em "querer ter". Esgarçamos tanto esse sentido pro abismo capitalista que hoje usamos, não pouco, a expressão "sonho de consumo"

"É importante sonhar. E é a cultura da terra que Yanomami sonha, cheirando yakoana, cheirando árvore sabedoria (...) a gente sonha porque quer sonhar a terra-mãe e a floresta, tem que usar uma árvore (...) com 10, 11 anos eu comecei a sonhar, porque comecei a cheirar yakoana com os pajés, sonho de queixada, sonho de anta, sonho de onça, pássaro, arara, escuridão, o sol, lua, estrela e a chuva, vento, tudo que o sonho e olha pra nós, jovem e pajé também sonha. Eu não sei o que vocês sonham, sonha mercadoria, sonha de comprar, sonha de comprar roupa, comprar carro e gasolina, o nosso sonho é diferente."  

Davi Kopenawa, pajé Yanomami - aqui.

 

A partir de Fevereiro de 2020 aconteceu o que parecia impossível: se o mundo não parou, ele deu uma surpreendente puxada no freio. Não porque essa foi a única pandemia viral da nossa história moderna, claro, mas porque essa teve como epicentro algumas das cidades mais industrializadas (e com grana) do mundo. Fato é que, ao nos isolarmos em casa, voltamos a fazer algo que parecia esquecido: muitos de nós puderam dormir meio que sem hora. Respeitando um pouco mais nossos ciclos naturais, nossos próprios horários, pudemos dormir mais profundamente, e então, sonhar mais. E sonhar mais vívido, pois estamos sonhando, também, com um trauma coletivo.

 

Sonhar coletivamente é o que nossos ancestrais faziam, e é o que centenas de comunidades nativas e tradicionais ainda fazem hoje sobre a Terra. Xamã é uma palavra siberiana que significa "aquele que enxerga no escuro", os xamãs e pajés e líderes espirituais tribais conduzem em roda os sonhos coletivos de suas comunidades. E mulheres e homens sonham juntos guiados por fungos e plantas mestras. Sonham dormindo também: sonham o individual e sonham os caminhos comunitários.

"Em torno das fogueiras e no interior das cavernas, os xamãs inflamaram a si mesmos, descobriram caminhos, foram mais leves que o ar, viram no escuro, decifraram sonhos e curaram enfermidades" 

Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo do Noite.

 

Foto: Roberta Nader na exposição do

grafiteiroRaiz Campos em Manaus, 2019.

Frase de Davi Kopenawa Yanomami,

no livro A Queda do Céu

 

Nosso mundo, humano, É um sonho coletivo. 

Hoje sonhamos consumo. Sonhamos emprego. Sonhamos fama. Sonhamos asfalto. E acabamos criando um simulacro de mundo que não nos dá tempo nem espaço para dormir, nem sonhar.

 

Precisamos sonhar floresta. Sonhar pontes vivas de raízes e não muros mortos de concreto. Precisamos sonhar juntos como comunidade o mundo que queremos e não o que os bilionários que não dormem nos oferecem. 

 

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Ponte viva trançada com raízes de árvore, criação tradicional nas comunidades de Meghalaya, Índia.

Fonte.

 

E não à toa sonho é desorganizado, é surreal, pois é desorganizando que podemos re-organizar os caminhos que queremos percorrer.

 

Que esse isolamento nos re-ensine a sonhar. Primeiro como sujeitos, de-colonizando nosso sono e nossos sonhos do capitalismo-tardio-sociedade-de-consumo. E depois coletivamente.

E para isso temos rituais: antes de dormir silenciar a casa, escurecer os cômodos, desligar os aparelhos, amainar os pensamentos… e também fazer um diário dos sonhos: ao acordar, antes de fazer qualquer movimento, qualquer pensamento, temos que contar para nós mesmos o sonho que acabamos de ter, a memória do sonho é muito fugaz, mas a da vigília é forte. Depois a gente escreve os sonhos e vai guardando. Quanto mais fazemos isso, mais sonhamos e mais lembramos.

 

 

 

 

 

Roberta Nader

Roteirista 

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São Paulo

junho 2020