território livre  |  2021

 

VERÁS QUE UM FILHO TEU

 

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Enquanto o povo cresce em minha direção, com os olhos injetados de sangue e ódio, penso se dói mais morrer de câncer ou de linchamento.

Num átimo a memória retrocede até pouco mais de dois meses atrás e me vejo diante do médico, me dizendo com olhar profissionalmente compungido que, infelizmente, os dias que me restavam sobre a terra provavelmente não chegariam sequer aos três dígitos.

 

A notícia que devastaria qualquer alma me incomodou muito pouco. Houvesse sido dada há pouco mais de um ano atrás, antes da tragédia, minha vida teria se partido em cacos. Mas agora eu já não tinha quase nada a perder.

 

A primeira foi minha mãe. Indefesa e sem noção da presença mortal do inimigo silencioso na simplicidade do seu cotidiano, foi pega à traição e sucumbiu nas primeiras levas. Nessa época, ainda no início de tudo, já se podia imaginar o que nos esperava, pela maneira como as hostes agressivas, que brotaram como vermes do intestino da sociedade, tratavam a tragédia que se aproximava, minimizando e negando sua letalidade, ecoando a insensatez do líder que as tangia.

 

Depois foi minha mulher. Convocada desde a primeira hora ao campo de batalha, tantas vezes foi espectadora impotente de vidas que se esvaiam por entre seus dedos, feito areia na ampulheta implacável do fim. Acabou colhida pelo bote do assassino invisível que combatia, exaurida, nas noites em claro de plantões sombrios. Suas últimas palavras, antes da partida sem retorno, foram para me lembrar que havia frango e arroz na geladeira e pedir que pusesse na máquina seu uniforme branco de enfermeira. Depois de vencida a luta, voltaria, sem medo, ao front que assumira, guerreira da cura, capaz de doar, como de fato doou, a própria vida. Isso foi mais ou menos no tempo em que o mundo começou a ver no horizonte a possibilidade da imunização libertadora e os bárbaros que urravam mentiras nas ruas e nas telas, exaltavam a insana arrogância do seu mentor, que brandia desafiadoramente remédios ineficazes contra a foice da morte e ignorava, com soberba frieza, a oferta da possível libertação, enquanto incentivava, pessoalmente, a desobediência à razão e à Ciência.

(Creio que foi nestes dias, ao dobrar e guardar o uniforme da minha companheira, agora apenas um monte de pano sem vida no fundo de um armário, que me veio a primeira idéia do que me trouxe até aqui, cercado por meus algozes, nesta manhã seca e azul, provavelmente a última da minha vida.)

 

Minha única e amada filha me trouxe algum alento ao anunciar, meses depois, que trazia no ventre meu primeiro neto. Que, se fosse mulher, teria o nome de Ana Sofia, homenagem à avó e à mãe dolorosamente perdidas. O amor gotejou de novo no deserto do meu ser. Cheguei a ensaiar sorrisos. Mas, como um momento de calmaria na tormenta, o sopro de felicidade se mostrou apenas uma rápida brisa. Feito um predador à espreita numa fresta da alegria, a desgraça que nos assola apontou novamente seu dedo sombrio e levou tudo o que me restava de afeto nesse mundo. E, junto com ela, em seu ventre, minha última esperança de futuro. Pela terceira vez sem um gesto de adeus, a mesma despedida distante e seca.

 

Já era o tempo em que as ruas se enchiam de aglomerações inconsequentes, emulando a falta de empatia do seu guia, desacatando e agredindo pelo direito de contaminar e ser contaminado, confrontando o mundo estarrecido e a sociedade indefesa diante de tanta leviandade assassina.

O desejo que me inquietava foi, então, me tomando cada célula. Mas, ainda assim, eu tinha medo. Medo da tsunami de descontrole, violência e fome que crescia sobre nós, enquanto hordas refratárias à razão seguiam festejando a morte numa ciranda compulsiva de negação, regida por um maestro louco, que vociferava sobre pilhas de cadáveres dos seus conterrâneos, tratados como simples números numa estatística sem alma.

 

E veio então o diagnóstico fatal e libertador. Alimentado por tanta amargura e desalento, já não havia mais cura possível para o carcinoma que me roía as entranhas.

A partir daí, tudo se desenrolou como num filme. Um filme que, apesar de tanta crueza, eu sabia que teria um final feliz. Se não para todos, para muitos como eu.

Com o pouco que ainda me restava, comprei a passagem, aportei no coração do Brasil, aluguei um carro e me instalei no hotel mais próximo ao cenário da minha redenção. Foi muito simples obter o objeto que me eternizaria como santo e maldito, graças às imensas facilidades que ele mesmo criara para a comercialização da morte.

 

Por três intensos dias sumi por estradas vicinais ao redor da cidade, onde treinei com afinco as habilidades enferrujadas que desenvolvera ao servir o Exército e me deram fama de olho certeiro e implacável. Ninguém estranhou nem procurou saber do que se tratava, afinal, autorizados por ele mesmo, os latifundiários gozavam de imensa liberdade em usar desse método no campo, para defender suas propriedades.

 

No grande dia, esse mesmo de onde lhes falo, acordei cedo, vesti a camisa que usei na Copa de 14, manchada sete vezes pelo alemães que, há pouco mais de 80 anos, se deixaram levar pela mesma armadilha na qual hoje estávamos caindo. Só que, dessa vez, em nome da minha mãe, minha mulher e minha filha, a história não se repetiria.

 

Coloquei o objeto numa bolsa onde grudei um adesivo com seu rosto, do tempo da campanha, me enrolei na bandeira e parti para o local planejado. Lá estava ele, tão cedo e já descontrolado, espumando perdigotos raivosos contra tudo e todos que não lhe fossem subservientes, sob aplausos dos aduladores usuais. Gritei junto com eles slogans que fizeram meu câncer reagir com pontadas de revolta. Quando vi que a vaidade e a adoração coletiva abrira uma brecha de atenção no aparato de proteção, me afastei um pouco, pus na boca um cigarro e enfiei a mão na bolsa como à procura de um isqueiro. Quando a retirei, meio escondida pela bandeira, já trazia nela o objeto e estava tomado por puro instinto e certeza inquebrantável. Trezentas mil almas brasileiras perdidas se apossaram de mim e eu já não tinha controle sobre meu dedo.

 

Entre o primeiro e o terceiro estampido não se passaram 4 segundos.

Tudo então pareceu entrar em câmera lenta. A reação dos presentes, processando o fato. Os seguranças, primeiro dando atenção ao chefe caído. E todos, finalmente, se virando contra mim e partindo em minha direção, com olhos injetados de sangue e ódio.

Será que dói mais morrer de câncer ou de linchamento? Nos segundos que me restam concluo que tanto faz porque, alguns metros adiante, aquele corpo sem vida no chão justificava tudo. Libertas quae sera tamen.

 

Na porta de algum hospital do Brasil, uma mãe, uma esposa e uma filha, abraçam, emocionadas, um homem que, depois de tanto sofrimento, se livrara da morte que o perseguia apenas por ser brasileiro e estar vivo naquele tempo de vilania, incerteza e dor. Que naquele momento começava a acabar.

Este homem também era eu e nele eu sobreviveria, foi meu último pensamento enquanto um velho de amarelo rachava meu crânio com o mastro de uma bandeira e um segurança de olhar frio e cruel engatilhava a pistola apontada diretamente contra o meu peito.

Juliano da Adelaide

Crônista sensato e trabalhor rural

Serra Talhada - Pernambuco

 

arte

Diàna Markosian

Londres

 

março 2021