território livre  |  2020

Filme

Cynthia Vasconcellos

NÚCLEO MAGLIANI -

PERMANÊNCIA DE UMA OBRA

 

Maria Lídia Magliani (Pelotas 1946/Rio de Janeiro 2012) formou-se em pintura pelo Instituto de Artes da UFRGS em Porto Alegre, cidade que foi a base da sua formação. Ao longo de sua carreira, tornou-se uma figura emblemática de sua geração ao realizar várias exposições de sucesso, incluindo uma mostra retrospectiva de seu trabalho em 1987 no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Participou da XVIII Bienal Internacional de São Paulo no núcleo “Expressionismo no Brasil – Heranças e Afinidades”, bem como de diversas edições do Panorama da Arte Brasileira promovidos pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. 

 

Ed 10 MAGLAIANI 02 Monotopia 29,5X20,5cm.JPG
Ed 10 MAGLIANI Monotipia 29,5X20,5cm.JPG
Ed 10 MAGLIANI Monotipia 01 29,5X20,5cm.JPG

A artista viveu entre Porto Alegre, São Paulo, Tiradentes e Rio de Janeiro. Atuou em muitas frentes além da pintura, da gravura, do desenho e da escultura, pois foi também atriz, cenógrafa, figurinista, diagramadora e ilustradora nos Jornais Folha da Manhã, Zero Hora e Folha de São Paulo, assim como outros da imprensa alternativa.

“A arte para Magliani era um projeto de vida”. Assim escreve Izis Abreu em seu texto Silêncios rompidos: A hipersexualização da mulher negra em Maria Lídia Magliani. “Na obstinada persistência em busca de seus propósitos, a artista acabou trilhando uma trajetória tão dramática e intensa quanto sua expressividade artística. Nem mesmo com sua potência gestual, seja na fluidez do desenho, no embate com a madeira ou na dança frenética dos pincéis, Magliani foi capaz de seduzir por completo as estruturas dominantes do mundo da arte. Nos espaços de disputas pelo poder simbólico SER não basta, é preciso TER. Magliani se posicionou como uma propositora de questionamentos. Não via sentido em explicar suas imagens, pois não tinha tais respostas, apenas perguntas. Conforme a artista mesmo declarou, seu trabalho pretendia expressar sua própria condição humana, mostrar a si como um todo, o que também implica em tornar visível a subjetividade de uma mulher negra e com grandes dificuldades financeiras, tornar visível o universo pessoal de uma artista que viveu e produziu em um contexto de cerceamento dos direitos civis, mas que também vivenciou a progressiva abertura política no país, assim como presenciou a revolução que transformou o fazer artístico. A deformação da imagem visual, a temática da solidão e da miséria humana, característicos da linguagem expressionista, são em Magliani uma alegoria do seu tempo, metáforas sobre a miséria da realidade cotidiana, de sua própria realidade. ”

 

Entre idas e vindas de sua vida quixotesca Magliani passou em determinado momento a morar no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Ali se integrou ao Estudio Dezenove, um atelier coletivo composto na época pelos artistas Ivana Curi, Paula Erber, Robson Camilo e por mim.  E a partir daí nos tornamos amigos e parceiros em vários projetos. O evento Arte de Portas Abertas, pioneiro no Brasil ao promover a partir de 1996 a abertura sincronizada de ateliers ao público, foi o principal deles e foi onde Magliani pôde obter alguma regularidade na venda de seu trabalho, já que no circuito dito oficial sua obra passou a ser vista com reservas pela crítica e pelo mercado de arte, mais ligados a obras de caráter conceitual. Sobre esse aspecto Rubens Pileggi Sá escreveu para o texto de sua última exposição PROCURA-SE realizada em julho de 2012 no Estudio Dezenove: “Cada passada de pincel pela tela uma afirmação: sou o que sou. Mas qual o preço que se paga para manter essa afirmação?

 

Podemos dizer que Magliani paga o preço de ser com sua própria vida para continuar sendo o que é: artista! O que é o artista? O artista é o fora incrustado na linguagem. Como uma craca, como uma marca indelével, áspera, dura, incômoda. Quando todos tendem a ser apenas estar, consumir, passar, Magliani grita e berra, NÃO! E continua sua longa pesquisa, tendo por companhia os fantasmas do expressionismo e as sombras pesadas e frias de sua formação no sul do país. Ainda que trabalhando bem no meio de Santa Teresa! “

 

Em 2013 criei no Estudio Dezenove o Núcleo Magliani com o apoio oficial dos herdeiros, impossibilitados de abrigar e preservar seu trabalho. Trata-se de um centro de referência da obra da artista que passou a manter em boas condições físicas a produção que permaneceu no local; a realizar o levantamento da fortuna crítica; localizar documentos e matérias de imprensa sobre sua obra e mapear coleções públicas e particulares para a criação de um arquivo documental para acesso público. Desse período em diante 348 obras foram inventariadas, entre pinturas, desenhos, gravuras e estudos. Foram mapeadas até o presente momento 165 coleções, preservadas 63 matrizes de xilogravura e de gravura em metal além de material de referência como cartas, diários, fotografias e catálogos.

 

Pesquisadores tem procurado o Núcleo Magliani para suas teses e dissertações, não só pela dimensão e importância da obra, mas também por sua figura emblemática, símbolo de resistência e luta. Exemplo disso foi o suporte dado pelo Núcleo às pesquisas que levaram à criação da GIM - Galeria Intercultural Magliani inaugurada em 2017 no Campus da UNIPAMPA Jaguarão no Rio Grande do Sul por iniciativa de um grupo de professores e alunos do curso de Produção Cultural dessa Universidade. 

Na perspectiva de exibição do acervo da artista, o Núcleo Magliani produziu em 2018 com apoio da Fundação Bienal do Mercosul e Theatro São Pedro de Porto Alegre a mostra “Uma troca: teu olho, minha mão" onde foi reunido um conjunto de pinturas e esculturas. No ano seguinte realizou a exposição Idioma-imagem na gravura de Magliani”, dessa vez na Galeria Maria Lúcia Cattani na Reitoria da UFRGS com curadoria compartilhada de Maristela Salvatori. Simultaneamente ocorreu um seminário sobre a obra da artista que contou com a participação de Angélica de Moraes e Neiva Bohns.

 

Ao término da exposição o Núcleo Magliani doou a integralidade das obras expostas para o acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo localizada no Instituto de Artes da mesma Universidade.  Dessa forma o Núcleo Magliani tem investido na doação de trabalhos para acervos institucionais como meio de difundir a obra da artista para as novas gerações, que levarão adiante o significado dessa obra, situando-a com merecimento na história da arte brasileira. 

Ed 9 Jullio Magliani retrato.jpg
Ed 9 Julio Magliani - Em Gerais, anos 90 papel machê e madeira.jpg
Ed 9 Julio Magliani - Figura Noturna II xilogravura, 1983, 29x18cm.jpg
Ed 9 Julio Magliani - Figura sorridente, OST 140x103cm.jpg
Ed 9 Julio Magliani -Com alguma distancia, 1991 OST 60x60cm .jpg
Ed 9 Julio Magliaani - ST, 1983 lápis de cor e pastel sobre papel 70x100cm.jpg
Ed 9 Julio Magliaani - Sem Título2, 1983 lápis de cor e pastel sobre papel.jpg
Ed 9 Julio Magliani_Série Um de Todos, 2004 foto Renan Cepeda.jpg

 

Julio Castro

Artista visual

Criador do Núcleo Magliani

estudiodezenove

Rio de Janeiro

 

Filme

Cynthia Vasconcellos

 

 

Obras: 

Maria Lídia Magliani

(1946 / 2012)

 

outubro 2020