Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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LUTO

 

 

 

 

 

Cólera, peste bubônica, febre de rato, raiva, tuberculose … coronavírus.

 

No livro “A Morte é uma Festa”, João José Reis nos conta sobre o episódio que ficou conhecido como a “cemiterada”, ocorrida na Bahia em 1836, quando o governo transferiu para uma empresa o monopólio dos enterros que passaram a ser feitos num cemitério construído fora da cidade, e por causa disso, explodiu uma grande revolta popular. Naquela época, os mortos eram enterrados em igrejas porque se acreditava na salvação das almas e numa vida melhor no outro mundo se os mortos estivessem sob o teto sagrado.

A cemiterada teve como motivação a defesa de concepções religiosas sobre a morte, os mortos e principalmente os ritos fúnebres, nessas cerimônias o sagrado e o profano muitas vezes se misturavam.

 

Além das procissões e missas, as festas tinham muita comida, música e vestes elaboradas para os eventos cerimoniais. Esse catolicismo barroco, lúdico e espetacular, era também um dos grandes veículos de celebração da morte.

Estamos no Brasil-Colônia e havia uma geografia social dos mortos desde essa época, embora brancos e negros, organizados em irmandades religiosas, pudessem ser enterrados nas mesmas igrejas.

 

A morte, antes vista como algo individual, assume em 2020, uma dimensão coletiva. E essa escala, tem um componente trágico e perturbador.

 

Por isso acho que o luto, é o sentimento mais próximo do que sinto nesse momento.

O Luto pela morte de um passado, um modelo de realidade que também não existirá mais.

Estamos vivendo a falência desse mundo que conhecemos como construção simbólica, que a gente atribui como realidade.

 

Não estou falando das nossas memórias, elas estão lá, fazem parte do nosso complexo sistema de emoções e afetos.

 

Falo desse sistema político que ficou obsoleto. A farsa do neoliberalismo e do estado mínimo.

Esse mundo permeado de individualidade, competitividade, da destruição da solidariedade e do meio ambiente. Assim como nossa saúde mental, nossa expressão cultural, as artes, a linguagem. Falo desse país que nunca velou seus mortos com o devido respeito, nem na escravidão, nem na ditadura militar, só para citar dois eventos brutais da nossa história. Punição? Reparação? Não, nunca houve.

 

Então é crise. Crise de sentidos, e é nesse luto coletivo que se expressa minha ansiedade difusa.

 

Lembro sempre das palavras do escritor português Valter Hugo Mãe, que disse numa entrevista:

" O quanto é desafiante ser pessoa no Brasil. O Brasil é um país agitado. A alma no Brasil é uma alma que se debate".

 

Sim, Hugo Mãe, você tem toda a razão. A construção desse país foi, e continua sendo, perversa.

 

O Brasil é um país profundamente desigual, conservador e classista. Aqui mata-se milhares de pessoas todo ano. Morre-se de assassinato, bala perdida, abandono, e as vítimas na sua maioria são os negros e os pobres. Vivemos uma banalização da morte. Por essas terras a vida vale bem pouco para alguns.

 

E agora, ainda temos o bolsonarismo, essa força mórbida e cruel.

 

Assistir esses vermes menosprezando o luto alheio é desprezível,  nem a morte eles entendem. Imagino que em certa medida tenham até um certo prazer perverso nela. Deveria partir do chefe de estado, uma certa solenidade e respeito pelas perdas humanas. A morte nos provoca a reflexão, o valor a vida, nossa humanidade. É triste vê-los tripudiando os rituais fúnebres, uma das expressões religiosas mais profundas e belas que os homens já inventaram, seja ela qual for seu credo e fé.

 

Para muitos povos indígenas o tempo é circular, como são (ou eram), os ciclos da natureza. Como dizem os povos Aymara e Quechua, o passado está a nossa frente e o futuro, ainda desconhecido, fica atrás, às nossas costas pois não o vemos.

 

E nessa outra perspectiva de temporalidade, que a cólera, a peste bubônica, febre de rato, raiva, tuberculose, nos traz a memória para entender o coronavírus de 2020 ... afinal, em se tratando de doenças, podemos ver o que já aconteceu, e imaginar a tragédia que se aproxima.

 

É urgente memoralizar os mortos da pandemia, do contrário repetiremos a vala comum da nossa história Brasil. https://inumeraveis.com.br/

 

 

Bolsonaro é uma infecção oportunista …

 

A morte já foi uma festa, hoje e sempre nesse país a vida flerta com a morte …

 

E lá vem o Brasil descendo a ladeira, e sem a alegria de Moraes Moreira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bettine Silveira

Figurinista e 

Pesquisadora dos saberes ancestrais e tradicionais

Rio de Janeiro

 

 

abril 2020