território livre  |  2020

 

MUITO BAGULHO POR NADA

 

 

 

Em 1999 (data oficial em que Nostradamus previu o fim do mundo), saiu meu livro O que é isso, Maconheiro? Foi boicotado por toda a imprensa escrita, sem exceção. Não saiu uma mísera linha em nenhum jornal de grande tiragem. A assessora de imprensa da Relume-Dumará me contou que os jornalistas recebiam o livro nas redações, colocavam-se em círculo e liam pedaços em voz alta, escachando-se de rir. Em seguida, o livro era encaminhado para a direção, que vetava sua divulgação.

 

Um mistério de insondável solução, mesmo porque a publicação era de humor explícito. Em hipótese alguma, fazia propaganda da droga. Nem exaltava nem criticava. Como dizia o selo pregado na capa, era baseado em fatos reais. Não arredei pé: continuei minha pesquisa para saber onde estava o enguiço.

 

Antes de virar Fnac, o templo branco do consumo de São Paulo chamava-se Shopping da Ática. Alberto Sprejer, o editor da Relume, me contou que o livro estava sendo boicotado inclusive pelas livrarias, a Ática era uma delas. Não acreditei. Liguei para o comprador de lá e perguntei o que estava acontecendo. Ele me disse que a Ática se reservava o direito de adquirir ou não o que bem entendesse. Perguntei quem resolvia isso. Ele me respondeu no ato: Eu. Argumentei que ele estava tirando o direito de o público ter acesso a um produto de consumo, o que era não só uma atitude fascista, mas também ia contra os princípios mais básicos do capitalismo. Tentando colocar um ponto final na conversa, ele foi categórico: o título era de mau gosto. Ato contínuo, perguntei se a livraria tinha o livro da Mônica Levinsky. Ele disse claro, era um best seller, lógico que eles tinham. E o mais novo representante do Santo Ofício emendou: Por quê? Nada, não, eu disse, só queria saber quais os critérios de bom gosto que norteiam a compra de livros.

 

Depois, o Jô Soares me chamou para seu talk show (ainda no SBT) e foi aquela farra. A plateia veio abaixo só com o título, uma corrosiva paródia do livro do Gabeira. Gargalhadas delirantes do público sublinharam toda a entrevista, o Jô leu trechos, esmiuçou a tabela do miolo, onde coloquei quem fumou, quem não fumou e quem fumou, mas não tragou, entrevistou meu filho Bruno, que estava na plateia (e que tinha me ajudado na pesquisa, garimpando discos do Bob Marley e letras do Planet Hemp) e o livro esgotou-se em três meses. Como não houve segunda edição por total inadimplência financeira da Relume, hoje, o pequeno volume é alvo de disputas acirradas em sebos e estantes virtuais da Internet, resenhado em blogs e sites, e bem mais citado que o boquete mais famoso da Casa Branca.

 

Nostradamus tinha razão: de uma forma ou outra, o mundo realmente acabou em 1999. Somando prós e contras, contudo, o episódio teve seu lado positivo. Afinal, é sempre é bom saber o que um livreiro hipócrita acha que é lícito entrar pela boca.

 

 

 

Furio Lonza

Escritor e dramaturgo

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Rio de Janeiro

maio 2020

 

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