Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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NAMASTÊ

 

 

Namastê! A primeira vez que morei na Índia foi em 2011, voltei a morar aqui em 2018, estava morando em Vijayawada por oito meses e mudei recentemente para Aurangabad, 250 km de Mumbai. A razão de estar morando na Índia é o trabalho do meu marido.

Me considero uma nômade e cidadã do mundo, nasci em Minas e coloquei o pé na estrada desde 1987, morei em 8 países e sem planos de parar…

 

Quero falar com muito cuidado sobre a minha quarentena, devido a complexidade e dimensão da Índia e desta crise global.

 

Eu voltei do Brasil para a Índia no dia 28 de fevereiro. As primeiras medidas e restrições na Índia começaram no dia 3 de março suspendendo os vistos dos seguintes países: China, Itália, Iran, Coreia do Sul e Japão. A partir do dia 13 de março, suspenderam vistos para todos os países.

 

Eu tive dor de garganta e febre nos dias 13 e 14, fui ao hospital no dia 15, porque queria ser testada, disseram que eu não era prioridade por não sentir sintomas mais sérios e deveria ficar isolada em casa. Não vou nem dar detalhes sobre o hospital, muito deprimente. Desde então não saio mais de casa, e por sorte, nunca mais senti nada. Mas fica a dúvida, será que eu fui infectada pelo vírus? Foi só um resfriado?

 

No inicio de março, a Índia registrou apenas três casos do COVID-19, em apenas três semanas, no dia 26 de março, a Índia registrava 649 casos e 13 mortes. Um numero relativamente pequeno considerando o tamanho da população de 1.3 bilhão. Mas será que dá para acreditar nestes números? Índia vem realizando testes em números inferiores a quase qualquer outro país do mundo. Apenas 15% de todas as mortes são oficialmente notificadas, o que é impossível de saber as causas.

 

A quarentena começou no dia 23 de março a partir da meia noite por três semanas. O presidente Modi fez o pronunciamente as 20:00 dando apenas quatro horas para as pessoas se organizarem. Infelizmente, começou tardiamente, de maneira desorganizada, abrupta e caótica, levando multidões desesperadas para as lojas e mercados e sem anunciar medidas para ajudar os pobres. Além disto, as pessoas ficaram no limbo com a paralisação de todos os meios de transportes e fechamento das fronteiras dos estados. Centenas de milhares de pessoas muito pobres estavam tentando voltar para casa em vilarejos distantes, estas pessoas estão continuando a jornada a pé, se não receberem ajuda, sem rápido acesso a comida e água poderá haver uma catástrofe.

 

Apenas alguns dias antes do lockdown iniciar, centenas de milhares de trabalhadores migrantes viajaram em trens superlotados de cidades atingidas por surtos como Delhi, Mumbai e Ahmedabad até seus vilarejos nos estados de Uttar Pradesh e Bihar. Isto aumentou o risco de transmissão e os especialistas temem que as duas próximas semanas sejam as mais desafiadoras para a Índia.

 

Quero colocar um pouco em contexto a realidade da maioria dos trabalhadores na Índia. Pelo menos 90% da força de trabalho está empregada no setor informal, de acordo com a Oganização Mundial do Trabalho. Estas pessoas recebem salários muito baixos e sem absolutamente nenhuma proteção social. Os migrantes formam uma grande parte destes trabalhadores vulneráveis. No Censo de 2011 contava com mais de 45 milhões de migrantes.

 

Um pacote econômico, muito modesto, anunciado pelo ministro das finanças para os trabalhadores vulneráveis, só aconteceu dois dias após o pronunciamento da quarentena. Não será suficente para estas pessoas, que não somente perderam seu emprego e renda, mas estão enfrentando uma epidemia.

 

Se levarmos em consideração a enorme densidade da população, a precariedade do sistema de saúde, falta de unidades de tratamento intensivo, falta de médicos e enfermeiros e a extrema pobreza, estamos diante de uma catástrofe iminente.

 

Além da enorme crise de saúde publica e econômica. O crescimento nos casos COVID-19 na Índia está levando muitos a reagirem com medo, pânico e racismo. Em todo o país, há relatos de ataques racistas contra pessoas da região nordeste que faz fornteira com a China, suspeitando que são portadores do vírus. Estão também sendo atacados: estrangeiros, funcionários de companhias aéreas, médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde envolvidos no tratamento do COVID-19 que estão sendo despejadas das suas casas. Espero que isto não esteja acontecendo em outros lugares do planeta.

 

Foi um erro não ter ido embora em um dos últimos voos. Mas teremos que sobreviver ao isolamento, vírus, xenofobia, provável escassez e o que vier pela frente. Como moro no interior, comida ainda tem em abundância, passa diariamente pela minha casa dois vendedores empurrando as carrocinhas com frutas e vegetais produzidos localmente. Na frente da minha casa tem uma pequena mercearia onde compro leite, iogurte e ovos. Por enquanto, as pessoas do meu micromundo, que nos tratavam bem antes do vírus, ainda não demonstraram hostilidade.

 

Mas a quarentena apenas começou, temos uma longa jornada pela frente.

Estamos vivendo um momento histórico sem precedente e que provavelmente nunca saberemos a real dimensão da pandemia. Quantas pessoas estão realmente infectadas? Quantas pessoas morrerão? Sabemos que o sistema tem recursos suficiente para priorizar a vida e paralelamente tambem cuidar da crise econômica. Porém, o que esperar de um sistema imoral, amoral e que prioriza o capital?

 

Em meados do anos 80, incialmente com a Aids, veio a globalização das doenças transmissíveis. Mas, ao invés de construir sistemas universais de saúde para enfrentar o desafio mortal, muitas nações privatizaram ainda mais seus setores de saúde.

 

Na Índia, sempre houve o domínio privado. Aqui tem um dos mais baixos gastos em saúde no mundo, menor até mesmo que Nepal e Bangladesh. A partir da década de 1990, o sistema de saúde pública, que nunca foi muito forte, foi ainda mais enfraquecido por medidas públicas. O governo atual também favorece o setor privado.

 

E agora? Nós como sociedade civil, o que faremos para mudar o sistema que prioriza o capital? Como protegeremos a raça humana e o meio ambiente? Tá tudo errado, acredito que está será a nossa última chance.

 

Saúde, Emprego, Moradia, Educação, Cultura & Justiça para TODXS!

 

 

 

 

Nagila Davis

Cofundadora WIFT Brasil

Women in Film & Television

Índia 

 

Abril 2020