território livre  |  2020

 

 

NUM BAR LOGO APÓS O TERRÍVEL ASSASSINATO DE GEORGE FLOYD

 

 

 

 

  • Você tem filho preto?
  • Você já teve de conversar com ele sobre como reagir a uma abordagem policial?
  • Você já acordou com pesadelos pois seu filho vai para a rua todos os dias?
  • Já imaginou seu filho tomando tapa na cara de policial injustamente? 
  • Como é que é? Não é assim? Rapaz, o policial já cola na minha testa o adesivo: "bandido, preto, pobre, zé ninguém, maconheiro e ninguém vai reclamar se for humilhado e assassinado".
  • Qual a cor do seu filho mesmo?
  • Agora que você chegou à conclusão que seu filho raramente será o suspeito em potencial, reflita aí, é justo você apoiar que ele entre na universidade pelas cotas, como ele entrou? 
  • Se sim ou não, dane-se, pergunte-se, você acha que está contribuindo para o fim do racismo no Brasil? 
  • Como é que é? É um direito pois ele tem bisavô preto.
  • Mas seu filho e filha são brancos, não?
  • Responde ainda não, deixa eu emendar com mais uma pergunta.
  • E você acha que eles sofrerão racismo quando procurarem emprego?
  • Esse teu blábláblá já tá pra lá de Marrakesh.
  • Você sabia que a filha da tua vizinha, que é preta e excelente profissional, recebe menos que tua filha que é clara e usa tinta loura nos cabelos? Elas fazem a mesma coisa, na mesma empresa. Você acha isso certo?
  • Não me venha falar que a mãe da menina preta tá de mimimi, que a gente já vai começar a se estranhar daqui em diante, e me levanto da mesa.
  • Não, não o quê, mormão? Fode minha paciência, não.
  • Você não sabe a raiva que eu tô por dentro.
  • Pro caralho quem acha diferente do que penso.
  • Nos matam com joelhada no pescoço. 
  • Nos matam com fuzil sem temerem ser filmados.
  • Nos matam todos os dias na fila do emprego.
  • Me matam todos os dias em que brancas não saem da minha frente na Zona Sul, e ainda exigem que eu peça licença, como um subserviente.
  • Nos matam todos os dias quando entramos pela porta de serviço.
  • Me matam todos os dias quando tenho de sair com sutileza a um ataque racista por meio das covardes piadinhas no meio só de brancos, e que nem brancos totalmente são.
  • Nos matam todos os dias quando não devemos dar uma porrada bem dada na cara do racista.
  • Nos matam todos os dias em que capitães do mato fardados e armados são pagos para defender os brancos dos pretos
  • Quando preto afirma que não existe racismo no Brasil para ficar bem na fita ao lado dos brancos.
  • Quando preto vende sua dignidade para subir na carreira.
  • Quando nas comemorações do 13 de maio Sérgio Camargo, presidente daquela fundação....... Fundação Palmares, acha mais importante venerar a princesa que a preta quitandeira que lutou contra a escravidão.
  • Quando preto vira papagaio de pirata ou cachorro vira-lata de capitão genocida. Agora que usa paletó e gravata acha que aqueles merdas os enxerga como gente. Tomar no cu, porra.
  • Quando sou obrigado a engolir mais uma morte de jovem ou criança por tiro, porrada e fome pois somos muitos pretos no Brasil mas muito pouco cidadãos. 
  • Meu sonho é a gente descer quebrando tudo que nem os pretos americanos. Queria ver se teríamos tantas crianças como João Pedro, Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Kethellen mortos pela polícia. Poderiam ser meus filhos e netos, cara...
  • Minha filha tá no movimento contra isso tudo na universidade. Ela vai ser mais uma a mudar essa história.
  • Zé, desce mais uma pra me envenenar.

 

Álvaro Pereira do Nascimento

preto, pai, pobre-pobre no passado e professor

Rio de Janeiro

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Gana

junho 2020