Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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O CONFINAMENTO PALESTINO EM TEMPOS DE PANDEMIA

 

 

 

Para palestinos, viver sob o cerco e o apartheid israelense é um agravante para a saúde da população
Com informações da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas e da Addameer
 

Poderia-se dizer que os palestinos sofrem com o novo coronavírus da mesma forma que as diversas populações mundiais, no entanto, suas especificidades são tantas que qualquer comparação é impossível.

As grandes economias do mundo sofrem para tentar evitar o avanço dos casos. Agora, imagine ter de enfrentar este cenário convivendo com um exército invasor em suas terras ocupadas, sendo tratado como um cidadão de segunda classe ou vivendo, literalmente, em uma prisão a céu aberto como é a faixa de Gaza.

De fato, o humor resistente dos palestinos não demorou em afirmar que Gaza seria o lugar mais seguro do mundo contra a pandemia, tendo em vista que está cercada há décadas. No entanto, a realidade, infelizmente, é assustadora e um surto de coronavírus no local seria catastrófico.

As condições específicas de Gaza não incluem somente a falta de hospitais, equipamentos, máscaras e testes. A região vive sob a sombra do plano de limpeza étnica sionista que impossibilita qualquer estrutura mínima para os palestinos. Lá falta água, luz, combustível. E é importante também lembrar que 17 hospitais foram bombardeados por Israel, em 2014.

Para aqueles que moram em outras regiões da Palestina, como a Cisjordânia, por exemplo, a situação não é muito diferente. Ali, o racismo impera e segrega, mesmo durante esta pandemia que é considerada por muitos sociólogos e espacialistas um verdadeiro marco na história da humanidade. Talvez a realidade seja está porque tudo o que sempre faltou na ocupação e apartheid israelenses é exatamente o senso e a prática de humanidade.

Neste período de pandemia, destruição de casas palestinas não parou por um só dia. Não há também qualquer preocupação com os trabalhadores palestinos.

Na verdade, preocupado com o fluxo de pessoas, Israel reteve a maior parte dos trabalhadores palestinos, impedindo-o que estes retornassem para suas casas ao final de cada dia. No entanto, não foi estabelecida nenhuma medida de segurança para essas pessoas, como máscaras e outros cuidados de higiene.

Quando algum operário palestino é diagnosticado ou tem suspeita de estar com o covid-19, ele é levado diretamente a um check-point por um carro militar. Lá é deixado voltar para casa, sem qualquer acompanhamento médico neste processo.

Em Gaza, uma verdadeira prisão a céu aberto, região em que o cerco israelense estabelece permanente "lockdown" há 13 anos, os dois milhões de palestinos têm apenas 87 respiradores para tratamento intensivo contra qualquer síndrome aguda respiratória.

Nas prisões, a situação é ainda pior. Desde o início da quarentena, Israel prendeu 357 palestinos.
As celas superlotadas são verdadeiras bombas relógio com o risco de contágio altíssimo. A falta de suprimentos e cuidados médicos com os prisioneiros é tanta por parte das forças israelenses que até mesmo se levanta, hoje, a hipótese de negligência deliberada para que o vírus se espalhe mais rapidamente entre os palestinos presos.

A Associação de Direitos Humanos Addameer de Apoio aos Presos Palestinos denuncia que as visitas de familiares e advogados estão proibidas, mas as notícias de primeiros infectados nas prisões apontam que os transmissores foram exatamente médicos e guardas que atuam nas unidades.

Segundo dados publicados pela organização em Março de 2020, as cadeias israelenses têm cinco mil presos políticos palestinos. Desse número, 183 são crianças, 20 delas com idade abaixo de 16 anos, e 432 detentos administrativos, ou seja, sem condenação e sentença definidas.

O confinamento também agravou algumas medidas criminosas que já ocorriam antes mesmo da pandemia. As mulheres grávidas sempre encontraram dificuldade de mobilidade para realizar consultas ou até mesmo parto. Agora, elas não são liberadas nos checkpoints israelenses e muitas delas têm o parto nesses locais hostis e insalubres ou ainda são retiradas e têm seus filhos no trajeto ou em casa. Há relatos de que muitas perdem seus filhos por falta de assistência médica.

Na primeira semana de abril, conta-se 8 mil casos de covid-19 na Palestina ocupada, 200 na Cisjordânia e 13 na Faixa de Gaza. O humor resistente tem se feito presente de novo. Moradores de Gaza perguntaram aos europeus em quarentena: “como é se sentir trancado?" Em outro momento, enviaram mensagens aos israelenses dizendo: “nós sonhamos com condições de confinamento como as de vocês”.

É assim que segue a vida daqueles que por décadas vivem trancados pelo apartheid israelense e que vivem na pandemia do novo coronavírus mais um capítulo de resistência em busca de dignidade. Em busca do direito de existir.

 

 

 

 

 

 

Sâmia Teixeira

Espaço Al Janiah

São Paulo

 

 

Foto

Cidade velha de Hebron

 

 

Abril 2020