Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

Fire 1 copy.png
Fire 2 copy.png

 

 

ONDE

 

 

calma

ele já volta

foi só buscar a lâmpada

e os comprimidos

não é um adeus

ainda há desejos esfarelados

que não saltaram pela janela

olha ali no canto

não é a infância abanando o rabo?

o gol os tecidos a xícara emprestada de açúcar

os ossos

 

calma

os silêncios já vêm te ninar

desossar teus tímpanos

ele vai calafetar as frestas os medos as cáries

a voz do pássaro cego

olha ali no canto

não é o cão vomitando vogais?

 

 

calma

esquece o choro

engole o frio

não são seus passos subindo a escada?

vem anda

alinhava teu pesponto

teu sono forrado de pregos

estende a mão

fura bolos mata piolho pai de todos

cadê o homem que estava aqui?

 

 

 

 

 

Cesar Cardoso

Rio de Janeiro

 

Abril 2020