território livre  |  2020

 

Artista visual

Osvaldo Carvalho

PEC 215

 

 

REPENSANDO O APOCALIPSE: UM MANIIFESTO ANTI-FUTURISTA INDÍGENA

O fim está próximo? Ou ele já veio e passou antes?”
Um ancestral

 

 

O título dessa série de pinturas do artista visual Osvaldo Carvalho é uma provocação e uma reação ao Projeto de Emenda Constitucional nº 215, que tirava o poder de demarcação de terras indígenas da Funai e passava essa atribuição ao Congresso Nacional, dominado em parte pela bancada ruralista. Na prática poderia ser o fim das demarcações. Os indígenas apontando suas flechas para o Congresso, para a “Justiça”, para o Palácio do Planalto e a Igreja, e todos os poderes constituídos que os ameaçam, nos levou até o manifesto Anti-Futurista Índigena denunciando a farsa do futuro pensando pelo colonialismo, um mundo pensado para eles e não por eles.

 

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Um fim que já aconteceu

 

 

A invasão física, mental, emocional e espiritual das nossas terras, corpos e mentes para assentar e explorar se chama colonialismo. Naus navegaram em ventos envenenados e marés ensanguentadas através dos oceanos, empurradas a fôlego curto e um impulso em escravizar, milhões e milhões de vidas foram silenciosamente extinguidas antes que conseguissem nomear seu inimigo. 1492. 1918. 2020…

 

Cobertores como armas biológicas, a matança do nosso parente o búfalo, o represamento dos rios que nos dão vida, o arrasamento da terra imaculada, os deslocamentos forçados, a prisão dos tratados, a educação coerciva através do abuso e da violência.

 

Dia após dia após a guerra, após o genocídio, negociando a humilhação pós-colonial do nosso lento suicídio em massa no altar do capitalismo; trabalho, renda, pagar o aluguel, beber, trepar, procriar, aposentar, morrer. Está na beira da estrada, à venda em mercadinhos indígenas, servindo bebidas no cassino, reestocando tendas, são os simpáticos índios ali atrás, você.

 

Esses são os presentes dos infestados destinos manifestos, que são os imaginários futurizados que nossos captores nos fizeram perpetuar e participar. A impiedosa imposição do seu mundo morto foi impulsionada por uma utopia idealizada como ossuário, era “para o nosso próprio bem”, um ato de “civilização”

Matar o “índio”; matando o nosso passado e com ele nosso futuro. “Salvar o homem”; impondo outro passado e com ele outro futuro.

 

Esses são os ideais apocalípticos dos abusadores, racistas e hetero-patriarcas. A fé cega doutrinal daqueles que só conseguem ver a vida através de um prisma, um caleidoscópio fraturado de uma guerra total e sem fim.

 

É um apocalíptico que coloniza nossas imaginações e destrói nosso passado e futuro simultaneamente. É uma luta pelo domínio do sentido humano e de toda existência.

Esse é o futurismo do colonizador, do capitalista. É ao mesmo tempo todo futuro já roubado pelo saqueador, do estuprador, do propagandista de guerra.

Sempre foi a respeito da existência e não-existência. É o apocalipse, realizado. E com a única certeza de um final mortal, o colonialismo é uma praga (prefiro o efeito também).

 

Nossos ancestrais entenderam que essa maneira de ser não teria como ser persuadida ou negociada. Não poderia ser mitigada ou redimida. Eles entendiam que o apocalíptico só existe em absolutos.

 

 

Nossos ancestrais sonharam contra o fim do mundo

 

 

Muitos mundos existiram antes deste. Nossas histórias tradicionais estão firmemente entrelaçadas com o tecido do nascer e morrer de mundos. Através desses cataclismos nós recebemos muitas lições que moldaram quem somos e como somos uns com os outros. Nossos modos de existência são informados na busca pela harmonia através da destruição de mundos. A Elipse. Nascimento. Morte. Renascimento.

 

Temos um sem-número de histórias sobre histórias do mundo que é parte de nós. É a linguagem do cosmos, ela fala através de profecias há muito cravadas nas cicatrizes onde nossos ancestrais sonhavam. É a dança-fantasma, as sete fogueiras, o nascimento do Búfalo Branco, a sétima geração, são os cinco sóis, está escrita em pedra perto de Oraibi e além. Essas profecias não são só preditivas, elas também são diagnósticas e instrutivas.

 

Nós somos os sonhadores sonhados por nossos ancestrais. Nós atravessamos o tempo entre os suspiros dos nossos sonhos. Nós existimos ao mesmo tempo que nossos ancestrais e as gerações por vir. Nosso futuro está em nossas mãos. É nossa mutualidade e interdependência. São os nossos parentes. Está nos vincos das nossas memórias, gentilmente abertos pelos nossos ancestrais. É o nosso Tempo do Sonho, e é Agora, Antes, Amanhã, Ontem.

 

A imaginação anti-colonial não é uma reação subjetiva aos futurismos coloniais, é um futuro anti-colonizador. Nossos ciclos de vida não são lineares, nosso futuro existe sem tempo. É um sonho, não-colonizado.

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Esse é o anti-futuro indígena

 

 

Não estamos preocupados em como nossos inimigos nomeiam seu mundo morto e como eles reconhecem e certificam a nós ou nossas terras. Não estamos preocupados em re-trabalhar as maneiras com que eles gerenciam o controle ou em honrar seus acordos e tratados mortos. Eles não serão compelidos a parar com a destruição que está prevista para o seu mundo. Nós não advogamos junto a eles para acabarem com o aquecimento global, uma vez que essa é a conclusão do seu imperativo apocalíptico e a sua vida se apoia na morte da Mãe Terra. Nós enterramos a direita e a esquerda juntas na terra que estão tão famintos para consumir. A conclusão da guerra ideológica das políticas coloniais é a de que os povos indígenas sempre perdem, a não ser que percamos a nós mesmos. Capitalistas e colonizadores não vão nos guiar para fora dos seus futuros mortos.

 

A idealização apocalíptica é uma profecia auto-realizável. É o mundo linear acabando a partir de si mesmo. A lógica apocalíptica existe em uma zona morta espiritual, mental e emocional que também canibaliza a si mesma. São os mortos levantando-se para consumir toda a vida.

O nosso mundo vive quando o mundo deles deixa de existir.
Como índios anti-futuristas, nós somos a consequência da história do futuro do colonizador. Nós somos a consequência da sua guerra contra a Mãe Terra. Nós não vamos permitir que o espectro do colonizador, os fantasmas do passado, assombrem as ruínas deste mundo. Nós somos a realização das nossas profecias.

 

Essa é a re-emergência dos ciclos do mundo
Essa é a nossa cerimônia.
Entre céus silentes. O mundo volta a respirar, e a febre baixa.

A terra está quieta. Esperando para que nós ouçamos.

Quando houver menos distrações, vamos ao lugar de onde nossos ancestrais emergiram.

E as vozes deles/nossas.

Há uma canção mais antiga que os mundos aqui, ela cura mais profundamente do que a lâmina do colonizador pôde cortar.

 

E lá, a nossa voz. Sempre fomos os curandeiros. Esse é o primeiro dos remédios.

 

Colonialismo é uma praga, capitalismo é uma pandemia.
Esses sistemas são anti-vida, eles não serão forçados a curar a si mesmos.

 

Nós não vamos permitir que esses sistemas corruptos e doentes se recuperem.
Nós vamos nos alastrar.

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Ed 9 Texto Osvaldo C 2020-10-07 at 15.02.05.jpeg

Manifesto na íntegra:

Indigenous Actinon

podcast afita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Osvaldo Carvalho

Artista Visual

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outubro 2020