Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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Pandemia, incerteza e reflexões

 

 

 

 

“Hasta que la dignidad se haga costumbre” passou a ser a frase emblemática do “estallido social” no Chile, no dia 18/10/2019, também denominado pela sigla 18-O. Coincidentemente esse dia do ano é o dia em que faço aniversário, por isso senti uma profunda felicidade, quando percebi que a partir de 2019, teria um motivo duplo para comemorar essa data, pois a desobediência civil representada nesse icônico dia, mostrava uma revolta tamanha frente a valores que dirigiam a sociedade chilena e que foram colocados em xeque. Abria-se a possibilidade de mudar o rumo que, mesmo na democracia, havia sido traçado através da economia, pelo ditador no auge da ditadura militar.

 

Enfim, era para eu falar da Pandemia que nos assola e aqui estou falando do 18-O. A relação entre esses eventos é da ordem do emocional, pois um sentimento tomou conta de mim a partir desse dia 18-O, um desassossego, uma certa angústia (no sentido existencial da palavra) passou a invadir parte do meu cotidiano, um sentimento semelhante ao que viria a provocar no início do mês de março, a Pandemia do Coronavírus.

 

Talvez seja bom explicar que, sou uma chilena que reside há mais de 35 anos no Brasil, cujo coração sempre está dividido no que se refere a esses conceitos de cidadania, pátria, time do coração, etc… até, porque me considero cidadã do mundo. Não obstante, acompanho de forma direta e indireta quase tudo o que acontece no Chile, assim como acompanho e vivo intensamente o que acontece no Brasil, o meu segundo lar.

 

Produto daquele sentimento de desassossego, fui impelida após o “estallido social” a acompanhar diariamente, durante meses, programas de rádio e TVs chilenas, a fazer contato com amigos, com ex-colegas de colégio e com ex-colegas de Universidade. Era uma forma de seguir de perto a intensidade de tudo o que continuava acontecendo nesse processo que, sem dúvida, modificou e modificaria ainda mais o curso da história do Chile. Um turbilhão... até a Pandemia do Coronavírus chegar.

 

Acredito que a convergência, neste momento histórico, desses 2 eventos “Estallido Social” e “Coronavírus”, aponta para uma mudança substancial no olhar, uma nova forma de percepção da vida em sociedade, uma nova forma de encarar os afetos, o que pode nos conduzir a uma nova forma de viver, de encarar as relações entre as pessoas, pois certamente, após essas experiências no Chile, os chilenos não são, nem serão os mesmos. Como no Brasil e no mundo inteiro, as pessoas não serão as mesmas. Na melhor das hipóteses (que é na qual quero acreditar), passaremos a viver de uma forma mais consciente, mais solidária, mais amorosa, movida por axiomas fundamentais, que coloquem o ser humano em primeiro lugar, onde toda vida importe, ou bem, sonhando um pouco mais baixo, quiçá reformularemos muitos comportamentos tentando melhorar a nossa passagem por este planeta. Na pior das hipóteses, passaremos a viver como nas premonitórias histórias de Orwell, Huxley, Conrad, Bradbury e uns quantos. Passaremos a viver numa sociedade do absoluto controle, o controle dos afetos em relações mediadas, uma sociedade dividida em estratos, sem solidariedade e sem liberdade alguma. Posso estar errada nas minhas elucubrações, porém o que é indubitável é que ao sair da Pandemia algumas coisas terão mudado, além de nós.

 

Por um lado é possível observar que o “estallido social”, no Chile, trouxe à tona a necessidade de pensar em valores essenciais, para construir uma sociedade que pretenda ser justa e solidária. Não foi por acaso que a palavra Dignidade surgiu com força, exaltando o valor da pessoa, do ser humano numa sociedade que tende a priorizar o capital frente aos seres humanos, onde manter o sistema é mais importante do que uma vida humana. Também trouxe à tona a crise da política e a iminente derrubada das instituições, trouxe à tona o desgaste de um modelo econômico que foi implementado por Milton Friedman e George Stigler através da Escola de Chicago, na década dos 80, em plena Ditadura Militar, usando o Chile como país cobaia para o projeto experimental de um Liberalismo econômico sem Liberdade política.

 

Nesse Chile do ”estallido social” as atividades dos movimentos sociais continuaram, incessantemente, nos meses que se sucederam ao fato emblemático, um exemplo disto era que toda sexta-feira, milhares de pessoas se concentravam no centro de Santiago, na Praça Itália que foi renomeada, pelo próprio movimento de Praça da Dignidade (Plaza de la Dignidad) demonstrando ao governo a capacidade de união das pessoas e de determinação em prol de seus objetivos, em espera da aprovação de uma Assembléia Constituinte, que viria a ser colocada em votação em abril deste ano de 2020. Um movimento social contínuo que se fortaleceu na dificuldade, que alimentou a solidariedade, os afetos, a empatia entre as pessoas, que nutriu os valores que o guiavam, que se manteve firme, apesar das persistentes investidas do governo para abafar e destruir toda e qualquer atividade realizada pelos movimentos sociais e impedir que essa votação fosse levada adiante.

 

Entretanto, Chile assim como o Brasil pertencem ao mundo, e a Pandemia do coronavírus não respeita fronteiras, portanto também chegou ao extremo sul do continente. Por consequência, em Março, um momento histórico tão significativo, após uma marcha das mulheres, no dia 08, em que aproximadamente 1 milhão e meio de mulheres se reuniram no centro de Santiago, tristemente teve que entrar num estado de letargia. O processo político teve que fazer uma pausa, e lá está esperando a hora de voltar. O que provoca um alento é que ele vai voltar, e me animo a crer, que o tempo de letargia servirá para pensar, refletir e organizar as propostas que virão com muito mais força. A quarentena do Coronavírus despertará outros questionamentos que, enriquecerão ainda mais, as discussões sobre o futuro e o país que se quer construir. E quem sabe, o discurso proferido por Salvador Allende, naquele fatídico 11 de Setembro, não estará tão distante da realidade: "Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor".

 

Por outro lado, constatamos na prática que a Pandemia do Coronavírus não entende de países nem territórios, nem respeita processos políticos ou situações econômicas emergenciais. A Pandemia não entende nem respeita essa ideia de tempo produtivo na qual estamos mergulhados. A Pandemia não está nem aí para modelo econômico. A Pandemia veio virar o mundo do avesso, veio mostrar nossa origem, nossa animalidade, veio deixar em evidência a nossa fragilidade na sua máxima expressão. Não há vacina que nos imunize. A potencialidade da morte, aquela que nos coloca no mesmo lugar a todos, aquela que nos iguala, tornou-se uma realidade e afeta a todos, principalmente aos frágeis, os frágeis de todas as classes sociais.

 

Essa Pandemia nos nossos países de distribuição de renda injusta, terá uma repercussão ainda pior entre os mais pobres. Nos nossos países latino-americanos o vírus ingressou pelos aeroportos, chegou com aqueles que mais viajam e de maior poder aquisitivo. Entrou com os mais ricos e deixará um rastro funesto nas favelas, nos lares mais pobres. O Coronavírus evidencia a precariedade do nosso sistema público de saúde, as deficientes políticas públicas, a deficiente infra-estrutura, no que se refere aos hospitais e até mesmo aos centros de pesquisa cada vez mais sucateados.

 

O Coronavírus é um vírus letal e mutável, e que ainda está em investigação. Esse vírus trouxe consigo um medo inigualável ao contágio e às suas consequências. Fomos surpreendidos por notícias de mortes massivas na China e as imagens que acompanhamos, principalmente na Itália, de páginas e páginas de óbitos num jornal, os gráficos das mortes por dia no país ou a informação de doações de tablets, para os hospitais, para que assim as famílias conseguissem ver e se despedirem dos seus parentes idosos internados. Algo que nunca foi vivenciado, algo profundamente doloroso e ao mesmo tempo assustador.

 

Ver através dos meios de comunicação cidades do mundo inteiro que normalmente estariam abarrotadas de pessoas, literalmente vazias. Escutar os governantes desses países pronunciarem discursos chamando as pessoas a ficarem em casa, não saírem, para evitar a superlotação nos hospitais e clínicas, chamando as pessoas a cooperarem, pois a situação era uma situação emergencial, demonstrava a seriedade do que estava sendo vivido.

 

Este momento histórico que vivemos, único e incomparável e todas essas ações que estão acontecendo, dão a sensação de estar participando de um filme de ficção ou, porque não falar, um filme de terror. O medo da morte está ali, em cada quarteirão vazio, em cada fila no lado de fora de uma farmácia, loja ou supermercado da Europa, onde víamos as pessoas usarem máscaras e manterem uma distância de quase 2 metros. O medo da morte estava em cada sacada ou terraço em que as pessoas cantavam ou tocavam instrumentos, estava em cada postagem de memes ou piadinhas acerca do tema. O medo da morte e a nossa luta pela sobrevivência está aí, escancarada diante dos nossos olhos nas redes, nos meios, nas nossas janelas para o exterior.

 

Na verdade, se formos honestos, a morte sempre pairou nos nossos países latino-americanos de forma abrumadora. Não é de se estranhar, a existência de surtos de Dengue, Zika e Chikungunya que já afetavam e afetam extensos territórios, ou bem a tuberculose e o recente sarampo que reapareceu, alastrando morte em algumas regiões Mas então, a pergunta que cabe é: se essas mortes sempre existiram nas estatísticas, por quê o Coronavírus passou a ser diferente? A morte que essa Pandemia traz é uma morte distinta das outras mortes? Sim, sem dúvida sim, porque aquelas doenças cujos altos índices de mortes sempre estiveram, são mortes seletivas socialmente, doenças que afetam minimamente aos ricos, atingem, prioritariamente aos pobres. De forma incisiva a Pandemia evidencia o abandono, o descaso existente com os mais desvalidos, evidencia algo que as nossas rançosas elites oligárquicas negam-se a enxergar e que até o momento presente não era algo “relevante”, visível: que dependemos uns dos outros, que constituímos parte de um mesmo corpo social e que se uma parte corre perigo, todo o corpo corre perigo. Agora, mais do que nunca, o desconhecimento desse vírus que nos assola, nos proporciona a oportunidade de assumir que todos somos responsáveis por todos.

 

Pois bem, para piorar a situação existente, o Coronavírus é um vírus que acompanha o ritmo dos tempos atuais, pois se dissemina a uma velocidade descontrolada e se espalha em grandes proporções. Por isso, para impedir sua disseminação, cá estamos nós em quarentena, refugiados nas nossas casas, evitando contato humano pois não somos imunes a presença do outro, não somos imunes ao contágio. Por consequência, o isolamento social foi a estratégia assumida por todos os países afetados pela doença. O Brasil, mesmo com um governo incapaz de assumir rapidamente as medidas necessárias, um pouco tardiamente, optou por essa estratégia. Portanto estamos em quarentena, isolados, lutando por manter nossa imunidade, obedecendo as regras de não movimentar-nos pela cidade, de evitar sair de casa, a não ser para questões essenciais. Estamos trancados sem protestar, tentando não nos expor ao contágio, porém expostos a nós mesmos e aos nossos fantasmas, cá estamos nós tendo que reformular nossos planos de vida adiados, tomando consciência dos nossos planos truncados, lutando para manter nossa cabeça girar na positividade, cá estamos nós tomando consciência da nossa finitude e talvez enxergando de forma mais esclarecedora o sem sentido de muitíssimas coisas.

 

Cá estou eu conversando e vendo meus pais no Chile mediada por um telefone, tendo plena consciência de que são o foco mais frágil dessa Pandemia, pessoas que não podem descuidar-se. Administro a distância meu medo a perdê-los por um vírus que não perdoa aos idosos, lamentando que a tecnologia não tenha evoluído o suficiente para experimentar a sensação de abraçá-los e beijá-los. Converso e vejo com uma tia muito amada, que é como se fosse minha segunda mãe e cuja idade e comorbidade a faz o alvo perfeito do vírus e tento distraí-la, e rimos juntas desfrutando cada minuto da nossa fala. Vejo e converso com meus irmãos e sobrinhos nos chats, os observo crescer e penso em quando poderei novamente visitá-los, abraçá-los e beijá-los. Conversamos com minha sogra e minhas cunhadas e tentamos levantar o ânimo. Eu organizo uma reunião familiar com meus irmãos e pais em conferência, para cantarmos parabéns para minha mãe, através de uma telinha. Após a reunião, escuto meus pais reclamarem pelo tamanho das imagens, um tamanho que não representa o tamanho da saudade. Converso com meus amigos em todas as cidades onde já morei no Brasil e com meus amigos que moram no exterior e assim os dias vão passando, no afeto mediado pela tecnologia.

 

Nesta quarentena, na medida em que o tempo transcorre o desassossego permanece, muitas dúvidas vão surgindo, mais perguntas do que respostas, mais incertezas do que certezas na espera de tempos melhores. Na expectativa de um tempo em que os afetos, a solidariedade, a ética, a justiça, a igualdade, a liberdade prevaleçam nas nossas formas de relacionamento. Na expectativa de que o respeito pela vida do outro seja regra, e que nos tornemos melhores nessa empreitada. Assim como no Chile do 18-O, todos lutemos juntos, em todos os cantos do planeta, para que a DIGNIDADE se torne um hábito.

 

 

 

 

 

 

Rosa Zambrano Valenzuela

Profa de Espanhol com Formação em Filosofia

Chile - Brasil

 

 

Foto

Cynthia Vasconcellos

Artista Plástica

 

Abril 2020

 

 

 

 

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