território livre  |  2021

OPERAÇÃO BUSCA E APREENSÃO

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Perdi o meu celular. Tateio os bolsos da frente da calça e nada. Tateio os bolsos de trás da calça e nada. Nem perco meu tempo tateando os peitos porque não tenho peito suficiente para guardar um celular ali. Digo isso com enorme tristeza — olha só, que ironia! — no peito.

 

Vasculho a bolsa apressadamente. Nada também. Penso em começar o trabalho de remoção de tudo o que levo dentro dela. Um trabalho árduo, é verdade. Bolsa de mulher, sabe como é, né? Penso em tirar item por item para ter a certeza de que o meu desespero é legítimo e tem uma razão de ser, mas não dá… Tirar para pôr onde? Segurar como? O mais inteligente a fazer é abrir um clarão num dos lados da bolsa e ir empilhando tudo no lado oposto para depois repetir o mesmo processo, só que do outro lado. Jogo tudo para um lado e nada. Jogo tudo para o outro lado e nada.

 

Refaço mentalmente todo o meu percurso para lembrar se passei por algum balcão, algum lugar onde eu, numa atitude desleixada, possa ter deixado o celular, mas entre um ônibus e outro eu não parei em balcões. Penso no pior: “será que uma mão leve aproveitou a muvuca do ônibus e tirou o meu celular do bolso da calça sem que eu percebesse?”. Não, não é possível! Eu teria notado. Nada passa despercebido dentro de um BRT. Pelo menos não diante dos meus olhos. Descarto esta possibilidade, convicta. Poucas vezes tive tanta certeza na vida.

 

Resta examinar a bolsa da academia. Até penso em começar a procurar ali, mas o desânimo não tarda e logo toma conta de mim. Eu sinto o meu rosto desmanchar, derrotado. Vem a lembrança da última vez em que mexi nela: pela manhã. A chance de, ao longo do dia, eu ter jogado o celular ali dentro, num movimento mecânico, não calculado era mínima, mas como a esperança é a última que morre, chamo os cães farejadores e retomo as buscas. Mas as buscas não dão certo e eu resolvo suspender a operação tão logo me dou conta de sua ineficiência. Eu estou aflita, seguro as duas bolsas, uma no ombro, outra no antebraço, mas não consigo manusear a da academia porque ela é de um tecido molinho que só dificulta as coisas.

 

Como estou em pé e na fila do ônibus esperando a hora boa para embarcar, não consigo revirá-la com apenas uma mão. Preciso da ajuda da outra mão, mas a outra está ocupada… ocupada segurando o celular.

 

*Essa crônica foi publicada no livro "A Passageira ao Lado e Outras Crônicas", editora Viés

Renata Andrade  

Roteirista

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Rio de Janeiro

arte Google

maio 2021