território livre  |  2020

 

 

BONDE DO AI-5

 

 

 

 

Em 1964 o baile tava uma uva, até que o bonde dos milicos bolados chegou passando o cerol, quebrando a democracia e tirando o Jango do salão. O Castelo Branco que era um tremendo dum X9, assumiu as bolachas na marra, tocou um funk marcial, fez o baile todo tremer e mesmo quem não queria dançar dançou. Se você não rebolasse no batidão deles, o batidão detonava você.

 

O bonde era perverso e não parou por aí, Arthur da Costa chegou mostrando que não era só mais um Silva e tocou o terror. A cada Ato Institucional o bonde pegava um, pegava geral. E, em dezembro de 1968, inauguraram o Bonde do AI-5. Aí ninguém mais ficou parado. Tiro, porrada e bomba e muita gente foi curtir o Baile, mas na Gaiola.

 

Quando Médici assumiu, os MCs de responsa já tavam sumindo ou já tinham começado a vazar daqui. A censura boladona era um esculacho. Tigrão, tigrona, popozudos e popozudas, ninguém tava preparado para esse bonde sinistrão.

 

 

 

Renato de Paula

Diretor de cinema e editor

natodepaula

Rio de Janeiro

 

outubro 2020