Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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Revanche da Natureza?          

 

 

 

Ruas vazias, pouquíssimos carros, raros ônibus, comércios fechados ... início de um filme de Sci Fi ?

Não, é o que se pode ver nas ruas de várias cidades em diferentes lugares do mundo depois da chegada do COVID-19. Mas o que é isto? Um vírus. Algo que não se vê, que não podemos tocar mas que pode matar!

 

Vi um cartum nas redes sociais que dizia: "O planeta nos mandou todos pros quartos pra pensarmos no que fizemos". E esta frase pra mim faz sentido porque o planeta está agonizando! As ações humanas são responsáveis por graves problemas como a poluição da água, da terra e do ar.

Tudo se compra, tudo se vende ...

 

Multinacionais decidem do destino da água, coisa nunca antes imaginada mas de uma ganância absurda, privando populações de água potável para engarrafar a Natureza! Merci Nestlé!

 

Este vírus é um dos cavaleiros do Apocalipse moderno, mas não podemos dizer que ele esta sendo seletivo. Não escolhe quem infectar, somos todos iguais perante sua força destrutiva, ricos, pobres, poderosos, célebres, desconhecidos...

 

Países parados ou quase. Se resguardam os que podem (financeiramente), os que creem (religiosamente) e temem os que devem continuar trabalhando, e ai vemos com profunda tristeza o espelho das iniquidades sociais se mostrarem em todo seu repugnante esplendor . Os patrões obrigam os empregados a se exporem e continuarem a trabalhar para que eles mantenham suas bolsas bem cheias, e a ameaça da recessão e da miséria fazem seus efeitos devastadores. O que temos de humano é banido por conta  de uma desigualdade dolorosa e nefasta.

 

E viver num país desenvolvido não muda em muita coisa a torpidez da cena, nem a gravidade da situação, somos todos iguais face a este "monstro" de alguns nanômetros de tamanho.

 

Os profissionais de saúde que reclamavam das terríveis condições de abandono, com a falta de condições mínimas para simplesmente realizarem seu trabalho cotidiano, e que foram às ruas para reivindicar atenção a esta situação aflitiva, são os que hoje devem se expor a um vírus assassino "de cara limpa"! Ou seja, sem máscara, sem gel hidroalcóolico, sem proteção ...

 

Aqui na França o panelaço é para eles, para dizer "Obrigado pelo que vocês fazem por todos nós "! Obrigado por estarem à frente desta "guerra" como disse Macron, uma guerra sanitária onde promessas em rede de TV não mudarão o ciclo devastador desta crise.

 

Estamos na segunda semana de confinamento, as máscaras que deveriam chegar a mais de uma semana ainda estão a caminho (?), um caminho atapetado de mortos. Médicos, enfermeiros, tentando fazer o impossível com o ridículo possível do qual dispõem. Mas, independente de toda esta demagogia nojenta e mentirosa, a população reage! Grupos de amigos, vizinhos, desconhecidos se organizam nas redes sociais para ajudar nesta falta de "quase tudo". Os que sabem costurar (homens e mulheres) fabricam máscaras com tecidos doados por outros e os fabricantes se servem de tutoriais open source para fabricarem suportes para viseiras com suas impressoras 3 D, a serem usadas nos hospitais, onde as máscaras prometidas nunca chegaram.

 

Profissionais da saúde se sentem esquecidos, à mercê de uma guerra onde eles são os soldados desconhecidos abandonados a própria sorte.

 

Esperemos que este vírus revele a verdade dos falsos discursos e os verdadeiros problemas de cada país, que sirva para despertar consciências!

Sabendo que saúde não se compra, e que indulgências não são mais vendidas pelas Igrejas como na Idade Média, mesmo se os evangélicos continuarem alegando poder salvar todos os fiéis que pagarem seu dízimo; que esta onda gigante de solidariedade seja a  lembrança que teremos no futuro.

 

Depois de alguns dias de confinamento a Natureza reage de uma maneira surpreendente: em Veneza podemos ver peixes novamente nas águas dos canais, que não são mais agitadas pelo turismo, coiotes passeiam pelas ruas de São Francisco abandonadas pelos humanos, javalis nas ruas aqui em Paris e voltam a nascer tartarugas em Galápagos depois de 100 anos ...

A esperança se anuncia!

 

 

 

 

 

 

Magali Lotufo

Artista Plástica que trabalha com materiais ecológicos

e ativista ambiental

Paris

 

 

Arte

Elisabetta Benassi

Itália

 

Abril 2020