território livre  |  2020

 

 NÃO SOMOS ASSIM

Maracanã, 2007. Léo Moura converte a última penalidade e dá o título estadual pro Flamengo, depois do empate de 2 a 2 com o Botafogo. Após rápidos, mas calorosos abraços em desconhecidos amigos íntimos pra vida toda que a gente faz durante uma final de campeonato, saio correndo do estádio com um amigo – este, conhecido de verdade -, enquanto a torcida comemora. Uma estratégia supostamente esperta pra não pegar o metrô lotado.

 

Ideia besta.

 

Caminhamos até a estação de São Cristóvão, a da torcida do Flamengo, e até ali tudo certo. Estação vazia. Chega o trem, vazio. Sentamos no fundo de um vagão e esperamos a partida.

Segunda ideia besta do dia.

O trem não parte. E, enquanto rubro-negros comemoram no Maracanã, alvinegros vêm chegando, revoltados com o impedimento marcado em Dodô que poderia ter resultado no gol do título deles. O clima fica tenso. “Sai, trem! Fecha essa porta!” Mas a porta não fecha. Eu e meu amigo, devidamente uniformizados, agora devidamente intimidados pela horda adversária que toma o vagão.

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“Flamengo só ganha roubado, bando de safados” e outros afagos nos são dirigidos, enquanto o trem espera que mais e mais alvinegros se juntem ao coro dos descontentes - até hoje acho que o controlador devia ser vascaíno. Tento disfarçar a tensão e dou um leve sorriso amigável para os injuriadores, provando ter um arsenal inesgotável de ideias bestas naquela tarde.

“Tá rindo da gente! Quer morrer? Flamenguista tem que apanhar, quebra os caras! Merecem uma lição!”, nos iluminam os educadores do vagão, prontos para deixarem a lição teórica e seguirem para a aula prática.

 

Eis que, só não direi que descendo dos céus, porque estávamos no buraco do metrô, o que dificulta a ação, mas, eis que um senhor calvo de seus 70 anos, bem magro, menos de 1m70, surge do nada como um gigante, braços abertos, se interpondo entre nós e nossos potenciais adestradores e profere, em tom messiânico: “Jovens! Nós não somos assim! Somos alvinegros. Nós não fazemos isso! Não somos assim!”

Os jovens em questão travaram. Seus cérebros, como diriam meus filhos, bugaram, tentando decodificar a mensagem pacifista pouco usual. Coisa de alguns poucos segundos apenas, até intuírem que a pedagogia deles era mais adequada. Felizmente, tempo suficiente para que os seguranças do metrô nos retirassem do vagão– não sem receber um didático chute no traseiro de uma jovem com gorrinho do time na cabeça e namorado orelha de couve-flor nos braços.

 

Muitas vezes, contei essa história em tom de bravata. Comparei-me aos 300 de Esparta, destruindo seus inimigos no desfiladeiro, acrescentando que os seguranças salvaram a vida dos persas em questão – e não a nossa. Mas o fato é que sempre serei grato ao senhor que, mesmo certo de que o título lhe fora roubado e que eu e meu amigo não deveríamos estar ali, conteve sua frustração para tentar ilustrar aqueles que supôs serem seus iguais. “Não somos assim”, ele repetia, com sua fé inabalável na humanidade. Aos menos, na humanidade alvinegra.

 

Fico imaginando como andarão suas crenças, hoje, se permanecem inquebrantáveis, se ele mantém a dignidade intacta e ainda tenta catequizar incautos.

 

Queria muito ver aquele senhor surgir novamente do nada, braços erguidos, tentando aplacar meus ódio e vergonha do que nos tornamos, proferindo: “Não somos assim!” Nem que fosse só para me plantar a dúvida por poucos segundos, tempo em que minha mente bugasse e eu fosse resgatado desse trem Brasil, tomado pela burrice e pela estupidez. “Não somos assim!”, ainda ecoando em minha mente descrente, louca pra acreditar em algo bom.

 

Sei lá. Acho que é só mais uma ideia besta.

 

Rodrigo Salomão

Roteirista

Rio de Janeiro

 

setembro 2020