território livre  |  2020

 

SOU CANDIDATO A MINISTRO DA CULTURA

 

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O insight veio agora mesmo, contemplando este fim de tarde top, enquanto tomo meu chopinho com os amigos de sempre aqui no Leblon. Brother, o Brasil é isso! O encontro com os amigos, a praia, o esporte. Essa é nossa cultura, não tem como negar. Um ministro que se preze tem que entender isso.

O que foi, Souza? Fala, paraíba! É secretário? Tá, espertão, secretário. Tu é esperto, mas tá aí me servindo, enquanto eu bebo meu chope, rarara!

Souza é gente finíssima. Abusado, mas gente finíssima.

Sei que será uma função cascuda, já que seguimos no meio desta pandemia terrível que está destruindo nosso país e que até atingiu nosso PR: a famigerada polarização.

 

Mas a hora é agora! Temos que aproveitar que o presidente está mais sereno, maduro, devidamente cloroquinado, e botar a mão na massa para ajudar a construir um Brasil melhor e mais solidário.

Não sou esquerda nem direita, sou Brasil! Por isso, evitarei dizer em quem votei, ou se anulei meu voto em 2018. Só posso garantir uma coisa: no PT não foi. Mas, galera, easy! Sei que nem todo mundo que votou na quadrilha é bandido. Alguns são só equivocados, outros foram iludidos pelo Luladrão. E a maioria é falta de estudo mesmo. Idiotas? Aí já não posso defender...

(Sem polarização, respira fundo, deixa a raiva de lado).

 

Desculpem, esse vírus é contagioso mesmo, rarara! Como meu pai sempre diz, lá na empresa dele onde sou diretor, mas gosto da dar uns perdidos de vez em quando: não sou ave Maria, mas sou cheio de graça.

E é justamente essa minha alegria, essa malandragem tipicamente carioca, que contagiam e trazem leveza pra vida, que pretendo levar pro ministério.

Tá, Souza, secretaria. Traz mais um aqui e fica na tua, mané!

Souza votou no Haddad no segundo turno. Mas não culpo o cara. Como é que ele vai entender a desmoralização que é pro país vir um condenado pela justiça dizer que o STF se acovardou diante do golpe contra Dilma? Epa, golpe não, processo legal de impeachment! Só faltava essa. Daqui a pouco o Souza vai querer que eu reconheça que a prisão do Lula foi ilegal. Quer dizer, admitir! Aceitar... Ih, gente...

 

O que tu botou nesse chope aqui, maluco? Misturou com a cloroquina do PR? Rarara!

Que mané cabo e soldado, Souza! São meninos! Garotos! Ainda estão aprendendo, deixa de ser mal humorado!

Souza é gente fina, mas ranzinza. Trabalha no bar desde os tempos em que meu pai me trazia aqui, eu era moleque ainda. O Souza e o primo dele, Chiquinho. Figuraças!

Cadê o safado, meliante, mau-caráter do teu primo, Souza? Chiquinho tá matando trabalho, de novo? Oi? Pegou, é? Ah... Porra, Souza, manda meus sentimentos lá, pra tua galera. Vou até tomar uma em homenagem a ele, valeu?

Vou ter que dar uma gorjeta maneira pro Souza, hoje. Tem que ser solidário.

 

E flexível. Falo isso inspirado em figuras ilustríssimas, como o príncipe da Avenue Foch, o homem do Plano Real, presidente FHC. Esse sim, um lorde, figura limpinha e cheirosa.

Sem radicalismo, acho bem possível fazer a ponte entre a classe artística e as pessoas que trabalham de verdade. Nunca diria, por exemplo, que 600 reais são esmola, porque sei como os gays são sensíveis, se ofendem por qualquer besteira.

Também posso contribuir para dar mais diversidade étnica ao governo. Apesar da pele clara, tenho um pé na cozinha. Meu avô era nordestino, não lembro se do Ceará ou Pernambuco. Mas brincava muito com o velho, o chamando de negão da família – escondia a carteira e tudo, dizendo que ele podia me roubar. Ríamos muito, juntos. Saudades do negão.

 

Se a gente usar a máscara da tolerância, vai perceber que foi a falta de traquejo com o jogo político que levou o PR a dar brechas a interpretações malucas, como a de que defenderia o fechamento o STF ou um autogolpe militar. Pra quê, se os militares já estão dominando geral, garantindo a segurança institucional do país?

 

Aviso aos navegantes: caso seja nomeado, não chamarei Bolsonaro de Mito, acho infantil. Mas prometo que, depois que ganhar um pouco mais de intimidade, arrisco uma vez chamá-lo de Bozo, só pra ver a cara que ele faz. O homem parece brincalhão, acho que vamos dar boas risadas juntos, que nem era com meu avô.

 

O quê, Souza? Tu tá um estraga-prazer hoje, irmão! Frias ainda não caiu? Sério? Aquele mauriceba, ator de quinta que posou de bunda de fora ainda tá lá? Porra, irmão, cansei, chega! Tô fora! Onde assino aquela parada dos direitos já?

 

Rodrigo Salomão

Não quer ser ministro

Rio de janeiro

 

 

Julho 2020