território livre  |  2020

AUTORRETRATO

Sidney Amaral

(in memorium)

Quando pensamos em arte no Brasil do século XIX, lembramos dos corpos negros subalternizados, explorados e humilhados. No século XX o negro começa a ter um certo espaço, principalmente na obra de Candido Portinari.

 

Mas o elemento inovador na obra do artista Sidney Amaral (1973-2017) é a utilização o próprio corpo como território para provocar e nos fazer refletir questões estruturais na sociedade brasileira, como a violência sobre os corpos de homens negros e pobres. Nesses autorretratos, ele propõe um posicionamento de afirmação do negro brasileiro frente à história e a realidade de opressão em que sempre viveram.

 

A obra de Sidney transita entre documentos/monumentos que suscitam subjetividades e esforços para reverter o que está colocado como norma, regra.

 

A série que apresentamos aqui são em sua maioria a dos autorretratos. Mas não só. Conheçam mais e mais.

 

 

Ed 10 Sidney Amaral (5).jpg

O ESTRANHO

Oswaldo de Camargo

Se o escuro me relevais

à baça pele que ofusca

vossa estimada clareza,

também vos deixo por nada

o enxurro de tantos medos

nas vossas mentes liriais.

 

Os vossos doces punhais

aceito-os com meu disfarce

e atrás do muro de um riso

escondo o meu pensamento...

Olhai! A noite que chega,

borrando o vão da janela

é bem conhecida minha...

 

Eu a carrego em baús

vazios de vossa herança,

e eu a livro, por vezes,

berrando de desespero,

e a minha mensagem viaja

no dorso do uivo do vento.

E vós dizeis, repousados,

se, a medo, vossas faianças

velais, arcados de tédio:

“São lamentos, só lamentos,

aprendizado do eito...”

 

Senhores, vós não sabeis quem sou,

ah, não sabeis quem eu sou!

Mirai-me o rosto de cobre

combusto de sóis e ardumes,

notai-me o passo, eis que aturo

a estreiteza da senda

que vosso mundo traçou.

 

Vinde, provai do meu pão!

Abancai-vos a esta mesa,

se conheceis quem eu sou!

Assentai-vos, meus senhores,

provai do meu pão de fel,

repasto useiro em família...

 

No vosso rosto percebo

enojo ao que vos oferto...

Mas o que é meu tributo

à vossa força e firmeza:

sal e fel e ausência bíblica

de uma “escada de Jacó”!

Senhores, vós não sabeis

quem eu sou

 

Não, não sabeis quem eu sou!

Mirai-me a face de cobre,

lavrada de sóis e ardumes,

olhai-me o rastro, eis que meço

a estreiteza da senda

que vosso mundo traçou.

Vinde provai do meu pão!

 

A noite sentada à mesa

é bem conhecida minha...

 

A angústia serve de ancila...

Eu vos convidei, senhores!

Provai, provai do meu pão!

 

 

 

 

Ed 10 Sidney Amaral (6).jpg
Ed 10 Sidney Amaral (7).jpg
Ed 10 Sidney Amaral (8).jpg
Ed 10 Sidney Amaral (9).jpg
Ed 10 Sidney Amaral (3).jpg
Ed 10 Sidney Amaral (10).jpg
Ed 10 Sidney Amaral (2).jpg

 

Sidney Amaral

(in memorium)

Artista plástico

 

Poema 

Oswaldo Camargo

 

Foto

João Liberato

São Paulo

 

 

 

nov 2020

Sobre o ativista Oswaldo de Camargo

 

Considerado um dos poetas, escritores e ativistas mais importantes do movimento negro brasileiro, Oswaldo de Camargo terá pela primeira vez parte de sua obra publicada por uma grande editora, a Companhia das Letras. De acordo com informações da Folha de S. Paulo, o ativista, que tem 84 anos, é militante desde 1955, quando tinha 19 anos.

 

“É enorme alento para outros autores envolvidos com a literatura negra, demais desconhecida. Conhecer e divulgar autores desse ‘coletivo negro literário’ vai trazer muitas surpresas”, disse Camargo, em entrevista à Folha, sobre a publicação na editora.

Ele é pai de Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares no governo Bolsonaro, que causou polêmica ao chamar o movimento negro de “escória maldita” e sugeriu acabar com o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.

 

“O movimento negro tem que, infelizmente para o país, seguir no rumo de fazer uma nova abolição, como iniciaram intentar a Frente Negra e a imprensa negra nos anos 1930”, disse o escritor.

Sobre as declarações e posicionamentos do filho Sérgio Camargo, Oswaldo declarou que eles nunca tiveram atritos e que o filho está usando a própria liberdade, da forma que acha melhor. Ele ainda contou que, com tudo isso, Sérgio o respeita e apenas há distância de ideias.

 

“Sérgio é meu segundo filho, fez jornalismo na PUC, trabalhou na rádio Eldorado, teve cargo de chefia na Agência Estado. Nunca tive atritos com ele. Apenas uma coisa: Sérgio está usando, a seu modo, e conforme o que ele acha a melhor escolha, a sua liberdade. Seu caminho não é o meu. Pai sempre será pai; filho, filho. Houve amigos que me deram solidariedade, vendo-me atingido pelo rumo do Sérgio”, afirmou.

 

“Com tudo isso, ele me respeita muito; indiquei leituras a ele. Apenas há a distância de ideias, um valor bastante fundo. Muito notado, no meu caso, por eu ser alguém que desde os 19 anos está embrenhado, sem interrupção, com a questão negra em São Paulo, erguendo e divulgando valores que têm norteado muitas gerações de afro-brasileiros”, disse.