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TODAS AS MULHERES

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São Paulo, 8 de março de 2021 (O pior ano para viver, sobretudo no Brasil. A semana que passou deixou uma marca de dez mil mortes em decorrência da pandemia da Covid-19, completamente descontrolada em nosso país. Ainda não sabemos o que acontecerá nesta semana)

 

Bem, se existe um dia, sim, um dia, no calendário com 365 dias, para se lembrar da mulher é porque temos problemas: a mulher é ainda minoria em relação à garantia de direitos? Sim.

 

Quando minha mente ainda ouve, com detalhes, relatos de mulheres, ora com tremores ou suores e “quenturas” e “frios na barriga” de medo e nojo, sensações descontroladas, numa sala de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), numa noite qualquer, mas que se tornou simbólica, pelo o que elas relataram. Incrível, mas naquela aula, uma quarta-feira chuvosa, só foram mulheres nesta sala e num bate-papo inicial de experiências, uma começou e as demais contaram histórias parecidas: todas sofreram algum tipo de abuso sexual, do mais “sutil” (caso fosse possível categorizar qualquer abuso como sutil – por isso, as aspas), à penetração, gravidez, sem aborto, e as que pariram seus filhos do estupro choravam de forma copiosa. Parecia que ao contar, o filho ou a filha, automaticamente, descobririam como, de fato, foram concebidos. Eram mulheres negras, moradoras da periferia, mães-solos, trabalhadoras e chefas de família.

 

Em minha experiência como professora, eu nunca, em todos os meus quase 40 anos de vida, ouvi tantas mulheres me contarem que foram estupradas. Algumas engravidaram e a criança foi parida. Os relatos não aconteceram somente naquela quarta-feira chuvosa, infelizmente, não.

 

Em Quarto de despejo, a obra que colocou Carolina Maria de Jesus no rol de escritoras da literatura brasileira, há um trecho que ela diz que as vizinhas não suportavam o fato de ela não ter um homem e ela rebate com algumas reflexões como: “eu vou virar pandeiro de homem?” ou “que homem há de querer dividir cama com mulher que tem debaixo do travesseiro lápis e papel?”.

 

Não por acaso, quando Angela Davis esteve no Brasil, em 2019, ela, como boa intelectual decolonizadora, rebate a atenção e até a comoção com sua presença em solo brasileiro com a seguinte indagação: “– Não entendo por que precisam de mim. Vocês têm Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus. [...]”. Sim, nossa Doutora Honoris Causa, título concedido pela UFRJ (2021), foi citada por Davis, em São Paulo.

Em Bitita, obra póstuma, Carolina cita um momento em que seu avô, homem que ela tanto admirava, inclusive por sua inteligência, bate na companheira porque esta aceitou um trabalho, que hoje, em São Paulo, chamaríamos de bico, e comprou a farinha que ele tanto gostava. Ela apanhou porque trabalhou e não o avisou e porque saiu de casa sem sua permissão, mesmo tendo comprado algo que o agradava.

 

Sabemos que nada, ABSOLUTAMENTE nada justifica qualquer tipo de violência doméstica, mas a narrativa ainda deixa a situação mais sangrenta, ao destacar o que a mulher fez para apanhar. Nesse momento, a narradora afirma que prefere ser como as meretrizes, pois estas têm liberdade, usam o vestido e o batom que quiserem, elas simplesmente vivem.

 

Ela foi mãe-solo de três filhos (os matriculou numa Escola ainda não universal, naqueles anos 1950-1960), chefa de família, vivia na insegurança alimentar,

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AS,

e ainda assim, à noite, após um pesado dia de trabalho, no barraco que abrigava ela e seus filhos, ela escrevia; as estudantes citadas no início desse texto, depois de toda a labuta e inseguranças diárias, iam à noite estudar. Adoravam dizer que eram livres, que os filhos estavam criados e “deus me livre de homem, professora. Homem? Só pra dar uns beijinhos, mas na minha casa, não”.

 

Há 107 anos, em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, veio ao mundo Bitita, a menina que sabia que não passaria “em branco”.

Em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro, a vereadora Marielle Franco, outra mulher negra, foi assassinada. Na ocasião, seu motorista, Anderson Gomes, também foi morto, mas o alvo era MARIELLE.

 

Foram mulheres que não souberam se portar? Falaram demais? Gritaram demais? Denunciaram demais?

 

As estudantes denunciaram, mesmo que num círculo fechado, mas com muito acolhimento feminino, de pura sororidade – não foram assassinadas “de forma literal”, mas, certamente, parte do que foram se foi com os abusos/estupros sofridos.

 

Carolina morreu no esquecimento, não foi enterrada como a grande escritora de Quarto de despejo e demais outras obras. Ela também foi morrendo aos poucos. Depois que a branca classe média viu o “exótico” (mulher, preta, favelada, “mãe solteira”, “semianalfabeta” e escritora) passar e depois foi abandonada. Morreu em Parelheiros, em 13 de fevereiro de 1977, há 44 anos. As aspas servem para lembrar que não existe mãe solteira, pois ser mãe em nada está relacionado com estado civil, além de ser um termo machista, pois o discurso escondido nesse termo é o “mãe sem ‘homem’”, como se pra criar um filho, a presença paterna fosse estritamente necessária, se assim fosse, que dó das novas gerações de “meninada” da periferia, principalmente, mas não somente, pois a imensa maioria dos lares periféricos se mantêm sem a presença do pai que ao abandonar os filhos comete aborto simbólico (confirmo os dados de forma empírica, pois além de lecionar, eu também moro na periferia de São Paulo); quanto ao “semianalfabeta”, como professora de português, isso me traz grande incômodo, por alguns motivos, dentre eles: o conhecimento não está preso somente nas paredes da escola, na educação escolar, portanto, e Carolina Maria de Jesus estudou por dois anos no Colégio Allan Kardec, de sua cidade natal, que embora pareça pouco tempo, foi o suficiente para fazer com que a escritora não mais parasse de ler e ESCREVER.

 

Carolina disse, em seus livros, entre muitos temas, que o Brasil não era o país da democracia racial.

 

Apresentou, de forma detalhada, o abismo social brasileiro, entre tantos outros temas.

 

Marielle denunciou, filmou, gritou e foi calada... na bala.

 

Há três anos, ainda pedimos justiça pelo assassinato da vereadora.

 

Por isso que não temos muito para comemorar em 8 de março.

 

As estudantes, as Carolinas e as Marielles ainda estão por aí.

Sirlene Barbosa

Coautora da HQ Carolina (Editora Veneta, 2016), em parceria com o

roteirista e artista da obra, João Pinheiro

Professora de língua portuguesa da Prefeitura de São Paulo

Doutoranda em Educação (FEUSP) – pesquisa relações étnico-raciais na educação básica das escolas municipais de São Paulo

 

É orientada por uma mulher brilhante, de origem periférica e preta – é parceira, é amiga, é ORIENTADORA, com letra maiúscula mesmo, porque a Profa. Dra. Iracema Santos do Nascimento foi o presente que 2020, primeiro ano da pandemia do Covi-19, presenteou a autora do texto que luta pra se manter viva, firme, altiva, de pé!

 

São Paulo

março 2021