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AUTOPOIESE

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Eu sou aquilo que eu me proponho a ser, do jeito que eu me construo.

 

Recentemente falecido, Humberto Maturana chegou a ser indicado ao prêmio Nobel por propor a teoria da Autopoiese. O biomédico e filósofo chileno, juntamente com Francisco Varela, formulou a ideia de que os humanos se autoconstroem, autoproduzem. O princípio foi batizado de Autopoiese, do grego auto "próprio", poiesis "criação".

 

Maturana afirmou que viver é se autoproduzir e isso só cessa com a morte. Ele defendeu que devemos trocar a competição pela cooperação. Mais ainda, ele mostrou que em outros tempos éramos

menos competitivos e desconheciamos a apropriação ou a dominação.

Por exemplo, nas sociedades matrísticas não havia submissão ou obediência. Isso está documentado através de análises arqueológicas A matrística existiu onde hoje é a Europa, se estendendo até a Turquia entre sete ou cinco mil antes de cristo.

 

Nesse tipo de sociedade havia uma cooperação sem hierarquias, principalmente entre homens e mulheres. Não se verificava hierarquias, os túmulos não apresentavam diferenças, o que denota a inexistência de classes, também. Na matrística não havia competição, mas sim um processo de co-criação, co-inspiração e inclusão.

 

Maturana nos deixou no início desse maio. Sua contribuição para um melhor entendimento sobre o que é a vida é enorme, reconhecida tanto pela academia de Estocolmo como pelo Dalai Lama. Ele propôs um outro olhar para a realidade, contrário ao positivismo científico apegado ao factual, mostrou que tudo é subjetivo.

 

Como todo cientista, Maturana não formulou leis, mas apontou questões pertinentes para entender esse momento que vivemos. Assim, quando ele afirma “A emoção que estrutura a coexistência social é o amor, ou seja, o domínio das ações que constituem o outro como um legítimo outro em coexistência", ele está apontando que o outro também é a floresta, o animal, o ar. Coexistimos, todos, em um espaço coletivo e esse existir coletivo é a única possibilidade de continuarmos vivendo.

 

Para Maturana o que define uma espécie é o seu modo de vida, uma configuração de relações variáveis entre organismo e meio”. Isso significa que não existem caminhos seguros ou uma escada evolutiva. Nem mesmo Darwin postulou isso e, como biomédico, o chileno defendeu que vivemos em relação ao todo e tudo que fizermos se reflete nesse todo e em nós mesmos, pois somos partes do todo.

 

A humanidade existe e se entende a partir de dois aspectos essenciais: o “linguajear” e o emocionar-se. O individualismo exacerbado e a negação da política (do Estado pensado por Keynes) nos conduziu a essa situação em que há um único pensamento: “faça o seu que eu faço o meu”. Para Maturana esse raciocínio vai nos levar a extinção da espécie.

 

O pensador chileno, juntamente com Varela, mostrou que estamos acoplados ao meio, que fazemos parte dele. Um pensamento vigente hoje ignora isso e é ele que justifica o desmatamento da Amazônia, o ataque aos povos originários (indígenas) e a mineração desenfreada.

 

Na contramão da História e contrariando os estudos de vários cientistas estamos trocando o emocionar-se pelo pensamento objetivista e autoritário. Maturana explica melhor: “Como humanidade, nossas dificuldades atuais não se devem a que nossos conhecimentos sejam insuficientes ou a que não disponhamos das habilidades técnicas necessárias. Elas se originam de nossa perda de sensibilidade, dignidade individual e social, autorrespeito e respeito pelo outro.”

 

Maturana foi incansável e criou, juntamente com Ximena Dávila, o Instituto Matrístico, em Santiago, Chile. Junto com ela também escreveu seu último livro "La revolución reflexiva", onde se anuncia: “los grandes cambios no se producen sino hasta que empiezan a cambiar los individuos”.

 

Autoproduzir-se, portanto, é dar-se conta que nossa vida ocorre no âmbito de complexas relações vitais muito mais amplas que a nossa individualidade. Maturana vê a vida humana como algo cultural, cuja produção se dá no entrelaçamento do linguajear e do emocionar. Talvez por isso formas absurdas de governar, como a que temos atualmente no Brasil, tenham como meta destruir a emoção, aprisionar a linguagem e subjulgar a cultura, enfim o desincentivo a autopoeise, a apologia à destruição.

Toni André Scharlau Vieira

Prof de comunicação da UFPR

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Curitiba

 

Foto Printerest

maio 2021