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TUA VIDA É UMA SIMULAÇÃO!

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Depois dos resultados das últimas eleições municipais muita gente passou a considerar com mais assertivas a hipótese da simulação do filósofo sueco Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. No artigo O Argumento da Simulação: Porque a probabilidade de estarmos vivendo em uma Matrix é bem alta”, publicado em 2003, ele aponta nossas vidas podem ser ilusões. Bostrom, que também é diretor do Instituto para o Futuro da Humanidade (FHI, na sigla em inglês), tem gritado que nos preparamos pouco para um futuro próximo onde as máquinas poderão tomar decisões sozinhas. Chega a pensar em “um cenário de extinção ou de uma era pós-humana”.

 

Ai você vê o seu tio lendo a maior mentira na sua telinha e o alerta que aquilo é fake news. Então ele responde algo como: puxa mas isso é exatamente o que eu penso! O tio não está vivendo uma simulação? E ele pareceu que queria sair dela? Não!

 

Na última cena do filme quanto mais quente melhor Jack Lemon, travestido de mulher, quer convencer Joe E. Brown que o casamento entre os dois não daria certo. Depois de várias tentativas ele tira a peruca e mostra que é homem ao que Joe responde impassível: “ninguém é perfeito”. Billy Wilder não estava antecipando a teoria da simulação, mas gravou na História a ideia de que algumas pessoas se negam a perceber a realidade que se coloca a sua frente. Se negam a entender o real como … real!

Bom, se juntamos o surgimento da Cambridge Analytica, o golpe de 2016, a eleição de Trump, do inominável no Brasil, entre outros acontecimentos como o Brexit na Inglaterra, podemos dizer que existe, sim, uma realidade criada artificialmente, uma simulação, que é compartilhada por muitas pessoas simultaneamente. O suporte usado para isso pode ser o uso de ferramentas como o facebook, o whatsapp, as múltiplas plataformas do google, mas isso não é o mais relevante. A grande questão é que podemos constatar a negação do que se convencionou a chamar de realidade nos últimos séculos por parte de grupos significativos da sociedade.

 

Em entrevista recente o neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis, afirma que o cérebro é um camaleão: “Ele se adapta. O cérebro não evoluiu para explicar para nós o que é a realidade. O cérebro evoluiu para fazer a gente sobreviver nessa realidade. São duas coisas bem diferentes. Existem mecanismos de defesa, de interpretação da realidade externa, que existem só para a gente sobreviver e não necessariamente traduzem o que está aqui fora.” A evolução do cérebro (darwianianamente falando) não é uma subida asfaltada para o bem estar geral. Nicolelis chega a falar em bloquear a transmissão de “vírus informacional”, ou uma “vacina” contra as fake news, por exemplo, como forma de conter o surgimento de factóides ao estilo brasileiro ou o mais duradouro, nesse momento, Wladimir Putin, na Rússia.

 

Certo, mas mesmo com todos os estudos disparando alarmes e sinalizando riscos iminentes do fim da raça humana ou do seu habitat diante dos últimos acontecimentos, especialmente questões climáticas, ainda vemos um grande número de pessoas negando tudo isso. O que fazer? Produzir uma “realidade melhor” que possa viralizar e salvar o planeta e a vida nele? Isso seria ético? Uma Cambridge Analytica de “esquerda”?

 

Os que nos jogaram na escuridão que nos encontramos, ainda que sem querer, devem achar que estão fazendo o certo. Os que defendem vários retrocessos sociais (como o fim do SUS) acreditam que a concentração de renda não é problema, principalmente porque vários despossuídos, oprimidos, gostariam estar no lugar do opressor.

 

Votar no opressor, no carrasco é um reflexo sadomassoquista de quem “está por baixo”, mas se estivesse “por cima” estaria fazendo o mesmo que os que estão “lá”. Ai então se confirma a tese de que podemos estar vivendo uma simulação. Produzida ou não a realidade tem mostrado isso. A questão é como continuar lutando pela humanização das relações humanas (como disse Engels) sem deixar de ser minimamente ético para sufocar o rasputim tecnológico a que estamos submetidos.

Toni André Scharlau Vieira

Prof de comunicação da UFPR

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Curitiba

fevereiro 2021