Bilhões de pessoas, presas em casa; tempo para refletir, assim discernir o que normalmente e desnecessariamente nos agita em todas as direções. Esse espaço serve e servirá para isso. Aprender a lidar com os limites de outro modo, subvertê-los e incorporá-los. Façamos desse espaço uma experiência máxima desse limite. Sigamos esse longo, doloroso e inesperado confinamento. Juntos!

  

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TREPIDAÇÃO

 

 

 

Posso dizer também sou filho do Caos, mas não gerei sequer uma estrela. Vim de outra ilha, ao sul do tempo, de que me sinto estranho, como se não dependesse de minhas raízes, como se buscasse novas florações, longe do tronco de meus ancestrais, a quem recuso chancela em meus domínios, como se estranhos me fossem, inimigos até, pois não abordam a menor parte de mim, da tênue configuração, de que se reveste minha superfície.

 

Que tenho a ver com esse tronco, selva de gentes errantes, que afloram num equívoco jardim. Eis por que anoiteço, filho do Caos, na esperança de gerar uma trepidação de luz, como quem deixa a velha casa, sem passado e sem destino. Fixo minhas raízes no presente e indago as formas que me circunscrevem neste exílio de treva e futuro adiado a cada gota de sangue. 

 

Sou filho do caos.

 

Sonho uma trepidação de luz.

 

 

 

Marco Lucchesi

Poeta, tradutor, escritor

Rio de Janeiro

 

 

André Benamour

fotógrafo

Paris

 

 

Agradecemos carinhosamente ao Marco Luchesi

que compartilhou conosco um trecho de seu próximo romance, ainda inédito. 

Shukram laka!

 

Maio 2020